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domingo, 7 de março de 2010

LEI, VEÍCULO DA GRAÇA DE DEUS

LEI, VEÍCULO DA GRAÇA DE DEUS

RESUMO
A má compreensão da Lei de Deus e o avanço do dispensacionalismo nas igrejas brasileiras, juntamente com outras concepções estranhas à Palavra de Deus, têm-se mostrado prejudicial a uma ortodoxia e conseqüentemente a uma ortopraxia. A lei nunca foi contrária as promessas de Deus, a lei não é inimiga da graça, a idéia da inimizade da lei e da graça é fruto de um neo antinomismo, que por sua vez é fruto de uma igreja que está afastada e continua a se afastar mais e mais da simplicidade do evangelho. E da correta relação da graça de Deus que se manifesta na Lei.

PALAVRAS CHAVES
Lei; Graça; Trabalho; Descanso; Sábado

INTRODUÇÃO
As relações de continuidade e de progressividade entre os Testamentos têm sido objeto de estudo entre os teólogos, a questão dispensacionalismo X aliancismo irá determinar e muito, o esqueleto doutrinário apresentado e ensinado nas igrejas.
Entender a continuidade ou a não continuidade é de suma importância. Neste artigo iremos defender a continuidade, a organicidade e progressividade das Escrituras. Entendendo que cada aliança subseqüente não invalida a anterior, ao contrário, complementa.
De sorte, que vemos a lei, não como algo rival à graça, vemos a lei como canal da graça de Deus.
Trataremos a questão “de um estar no outro”, ou seja, da graça está contida na lei, abordando a questão do quarto mandamento e da graça decorrente dele, tanto para o homem, quanto para a criação e destacaremos seu caráter maior, sua perspectiva libertária.

DEFINIÇÃO
Antes de mais nada precisamos definir o que é Lei?
O substantivo hr"îAT significa “ensino”. O DIT do Antigo Testamento faz o seguinte comentário:
Especificamente, a palavra “lei” refere-se a qualquer conjunto de regulamentos; por exemplo, Êxodo 12 contém a lei a respeito da observância da Páscoa. Algumas outras leis específicas incluem aquelas a respeito das várias ofertas (Lv 7.37), da lepra (Lv 14.57) e do ciúme (Nm 5.29). À luz disso, por vezes considera-se a lei algo constituído de estatutos, ordenanças, preceitos, mandamentos e testemunhos.

Esta definição é importante, pois o grande problema que se vê hoje em dia é justamente a não compreensão da palavra “lei” e isto se deve muito, por causa da compreensão dispensacionalista, que vê a lei como algo antagônico a graça de Deus.
O substantivo !xEß segundo o DIT significa “favor, graça, encanto,” esta definição é importante para a compreensão do relacionamento de Deus com os homens e as criaturas, o intuito é mostrar que a graça não só tem relação soteriológica, mas preservativa e relacional.

VEÍCULO DE GRAÇA
Para uma melhor compreensão é necessário mostrarmos o caráter da Lei como uma aliança, vejamos alguns textos: Ex 34.28; Dt 4.13; Dt 9. 9,11.
Isto é importante entendermos, a Lei é uma aliança e por ser aliança, é graça. Pois revela a vontade de Deus escrita, através dela o homem sabe o que agrada a Deus ou não, e conseqüentemente recebe as bênçãos, caso obedeça e as maldições, caso desobedeça. Mas, mesmo o castigo do Senhor, possui um caráter disciplinador e por possui isto, já demonstra o seu amor, Interessante observarmos o que Salomão disse. Ver 1 Reis 8. 22-53.
Também o texto de Deuteronômio 30. 1-5 faz menção da graça de ter a ira de Deus propiciada, quando o povo reconhece seu estado de miséria e pecaminosidade diante de Deus, e perde perdão a Deus.
1 E será que, te sobrevindo todas estas coisas, a bênção ou a maldição, que tenho posto diante de ti, e te recordares delas entre todas as nações, para onde te lançar o SENHOR teu Deus, 2 E te converteres ao SENHOR teu Deus, e deres ouvidos à sua voz, conforme a tudo o que eu te ordeno hoje, tu e teus filhos, com todo o teu coração, e com toda a tua alma, 3 Então o SENHOR teu Deus te fará voltar do teu cativeiro, e se compadecerá de ti, e tornará a ajuntar-te dentre todas as nações entre as quais te espalhou o SENHOR teu Deus. 4 Ainda que os teus desterrados estejam na extremidade do céu, desde ali te ajuntará o SENHOR teu Deus, e te tomará dali; 5 E o SENHOR teu Deus te trará à terra que teus pais possuíram, e a possuirás; e te fará bem, e te multiplicará mais do que a teus pais.
Aqui vemos que a Lei não é contrária a graça, a Lei é o veículo para receber as bênçãos condicionais, entretanto, mesmo que o povo de Deus venha quebrar a Lei, arrependendo-se, Deus será propicio.
Se a Lei não fosse uma aliança, fosse algo que não possuísse graça nenhuma, Deus não poderia remover o castigo, pois a Lei seria sem misericórdia.
Robertsom diz algo bem interessante
(...) a aliança mosaica da lei dirige-se claramente ao homem em pecado. Esta ultima aliança jamais pretendeu sugerir que o homem, por obediência moral perfeita, pudesse entrar em um estado de garantida bem aventurança pactual

A Lei está tão recheada de graça, que se não entendêssemos desta forma, como poderíamos entender a Lei cerimonial, sem que a víssemos como graça de Deus, quando o homem pecasse?
A idéia da substituição já estava contida desde antes da Lei e com a Lei isto não é eliminado. Na lei cerimonial isto fica patente.
Na Lei cerimonial existem vários tipos de oferta, eis os seus significados
1. As ofertas queimadas.
O termo que descrevia as "ofertas queimadas" é Olah que deriva da raiz do verbo que significa "subir" ou "ascender". É uma oferta de ascensão. Isso se referia ao fato de que a oferta inteira era queimada e "ascendida a Deus".
Ela era a oferta fundamental para que os homens comparecessem à presença do Senhor. Por isso, Levítico 1.3 diz que um homem que fez essa oferta "seja aceito perante o Senhor" e o verso 4 acrescenta "para que seja aceito a favor dele, para a sua expiação".
Uma vida foi oferecida sobre o altar.
Ela devia ser completamente queimada sobre o altar. Isso significava que o dever daquele homem para com Deus não era apenas de dar parte de si a Deus, mas sim uma rendição total e plena de si e de TUDO QUE POSSUÍA.
Dependendo da situação financeira do ofertante, a oferta poderia ser um touro, um cordeiro ou um pombo.
2. As Ofertas de Manjares.
Ela não envolvia tirar uma vida. Ao invés disso, era composta de farinha, óleo e incenso.
Ela reportava-se ao tempo da criação, quando Deus disse ao homem: "Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento” (Gn 1.29).
Este é um quadro daquele que se tornou o nosso "Pão da Vida", que foi ungido com "Óleo" do Espírito Santo.
Mel era proibido, ao invés disso era usado incenso.
Isso é porque o mel poderia eventualmente azedar (fermento também era proibido); mas o incenso ressaltava o seu mais alto grau de fragrância depois de ter sido queimado.
Ela seria temperada com sal - indicando preservação (2.13).
3. Ofertas pacíficas.
Todos comiam uma porção da oferta pacífica (o ofertante, o Senhor, o sacerdote e até mesmo os filhos do sacerdote).
Nas ofertas queimadas e nas ofertas de manjares, o Senhor e o sacerdote tinham uma porção, mas não o ofertante.
Isso significava comunhão com Deus. Quando você toma lugar em uma mesa e come com alguém, significa que você está em paz com ele. Cristo tornou-se nossa oferta pacífica. Nele Deus e o homem encontram um alimento comum.
È notável que a oferta pacífica geralmente vinha acompanhada de uma libação de vinho - Pão e vinho formam a mesa do Senhor.
4. Ofertas pelo pecado.
As primeiras três ofertas eram apresentadas como atos de culto. Esta oferta é constituída como expiação pelo pecado.
As primeiras três ofertas eram queimadas no altar. Esta oferta era queimada na terra nua, fora do acampamento. Este é um quadro de Jesus que foi crucificado fora de Jerusalém. Por isso, foi que também Jesus, para santificar o povo, pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta (Hb 13.12).
5. Ofertas pela culpa.
Esta oferta é a única que não é descrita como "aroma suave", como até mesmo a oferta pelo pecado é descrita em Levítico 4.31.
Esta oferta se aproxima muito da oferta pelo pecado, mas ainda tem algumas diferenças sutis.
Enquanto os pecados que requerem uma oferta são somente mencionados em um sentido geral, há um número de ofensas específicas que requerem uma oferta pela culpa.
Uma parte da oferta pela culpa incluía uma recompensa financeira para a parte que foi prejudicada (Lv 6.5). Assim, a oferta pela culpa incluía o princípio da restituição.
Trataremos agora, de forma mais especifica sobre o quarto mandamento e sua relação com o dia a dia do ser humano, da criação e do seu caráter escatológico.

QUAL A COMPREENSÃO DA RELAÇÃO ENTRE TRABALHO E DESCANSO?
A lei é veiculo de graça, demonstraremos isto, abordando a questão do 4ª mandamento e a graça contida na sua guarda. As Escrituras dizem: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu o eu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o seu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.” (Ex 20.8-11)
Será que este mandamento era desconhecido dos judeus?
Não!
No próprio livro de Êxodo, o Texto Sagrado nos informa “Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele, não haverá. Ao sétimo dia, saíram alguns do povo para o colher, porém não o acharam. Então, disse o Senhora Moisés: Até quando recusareis guardar os meus mandamentos e as minhas leis? Considerai que Senhor vos deu o sábado; por isso, ele, nos sexto dia, vos dá pão para dois dias; cada um fique onde estás, ninguém saia do seu lugar no sétimo dia” (Ex 16. 26-29)
O contexto desta passagem é a colheita de maná.
Qual a razão de Deus fazer tanta questão por este dia?
Será que quando Ele descansou é porque estava de fato cansado?
Não! A narrativa do Gênesis mostra-nos algo a mais. Deus nos ensina que devemos parar, devemos dar descanso tanto ao nosso corpo como as demais criaturas de Deus, que nos servem e também a terra. E aqui, vemos “graça de Deus”.
O descanso está relacionado com o mandato cultural, quando Deus criou o homem, deu-lhe a seguinte ordem: “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Édem para o cultivar e o guardar.” (Gn 2.16)
Este trabalho não seria continuo. Deus deu descanso para o homem. A própria terra também teria que descansar “Porém, no sétimo ano, haverá sábado de descanso solene para a terra, um sábado ao Senhor; não semearás o teu campo, nem poderás a tua vinha” (Lv. 25.4)
Quando começamos a olhar desta forma, vemos que a lei não é e nunca fora contraria as promessas de Deus Gl 3.21.
Hans Walter Wolff diz o seguinte:
O tempo do ser humano é, acima de tudo, uma dádiva. Seu trabalho se torna inútil e sem sentido, se ele esquece isso. Embora a sabedoria veterotestamentária exorte claramente a deixar a preguiça, ela previne com mais rigor ainda contra o equívoco de pensar que o ser humano seria obsequiado apenas por suas obras

Quando o Senhor pôs o homem no jardim, não o colocou para que fosse um desocupado, e muito menos que ele fosse um louco estressado, que não teria tempo para nada mais, além de trabalhar e trabalhar.
Aqui reside a graça do equilíbrio, trabalhar, mais também, poder descansar.
Não adiantaria muito coisa, se o homem quisesse descansar e não tivesse como. Deus providencia um dia para que ele parasse, e dar-Se como exemplo, Ele o próprio Deus, que não se cansa, para. Mostrando assim ao homem o que ele deveria fazer. E como vimos, não só a ele, mas toda a criação.
A compreensão correta da relação trabalho e descanso só se dar quanto temos a percepção da finalidade de cada um.
Qual a finalidade do mandato cultural?
O mandato cultural é representado pelo comércio, artes, trabalho, tecnologia, escola, etc.
Sua finalidade é o desenvolvimento, a exploração da terra. Mas, exploração consciente, e a isto, o próprio texto de Gn 2.15 limita. A expressão Hr"(m.v'l.W ( e para ela “ele” governar). Tem um profundo significado, segundo o DIT a raiz básica é a de “exercer grande poder sobre” o DIT também fala de um desdobramento, que para o nosso texto, tem uma aplicação mais especifica, “tomar conta de , guardar. Isso envolve manter, ou cuidar de coisas, tais como um jardim” .
O homem foi criado no sexto dia, e a primeira coisa que esse homem fez no seu primeiro dia de vida, depois de criado, foi o descanso, e isto tem uma aplicação teológica entre a relação trabalho X descanso. Wolff diz o seguinte:
Por conseguinte, o dia de repouso se destina a lembrar ao ser humano que ele foi posto em um mundo provido abundantemente de tudo que é necessário e de muitas coisas belas. As palavras recordam o primeiro relato da criação (Gn 2. 1-3) o qual descreve, em seu estilo arcaico, que o primeiro dia da vida do se humano foi o grande dia do repouso

Qual o ensinamento disto?
Mostrar ao homem que ele deve depender do Criador, todo trabalho já foi terminado, o trabalho do homem é a manutenção, o cultivo, a guarda. Diga-se de passagem, que o Criador não depende do homem para manutenção de sua obra, pois como o texto de Hebreus nos informa é Jesus o Grande Sustentador de tudo (Hb 1.3). O homem como vice regente da criação, governa a criação de Deus, e faz isto, por um ato de condescendência do Criador, de sorte, que Deus quis ensinar que Ele é provedor de tudo e que o homem precisa descansa Nele.
As Escrituras lembram ao homem esta sua limitação, mesmo falando contra a preguiça em textos como Pv. 6. 6-11; 26. 13-16. Ela de forma antitética também diz que O Senhor dá os seus enquanto dormem Sl 127.2. Então temos duas situações:
a- O Homem deve trabalhar
b- Mas o fruto do trabalho provém do Senhor
Desta forma, estabelecemos a relação entre trabalho e descanso, o trabalho visa à glória de Deus, pois é sua ordem, dada na criação, o descanso também é ordem sua, e também visa a sua glória, pois no descanso, o homem percebe que tudo que ele possa fazer, não terá resultados esperados, se o Senhor não lhe der. Então a graça reside em trabalhar e poder descansar.
Wolff faz o seguinte comentário:
A superanbudância tira o descanso do mesmo modo que o zelo demasiado (...). O sono bom se torna o fator distintivo do ser humano que vive no ritmo das dádivas e dos chamamentos de Javé. No descanso se mostra a arte de viver, isto é, aquela sabedoria cuja peça mestra é o temos de Javé. Ela sabe que a futilidade do esforço baldado dos fanáticos por trabalho foi definitivamente substituído pela graticidade da dádiva de Javé durante o sono.

SÁBADO
Com isto em mente, começamos a compreender a importância do dia de descanso, a idéia contida na ordem do Senhor em Gn 2. 3 dar-se como exemplo ao homem.
A primeira parte do texto sagrado, de Gn 2.3 diz: tb;v' AbÜ yKiä At+ao vDEÞq;y>w: y[iêybiV.h; ~Ayæ-ta, ‘~yhil{a/ %rw: (E abençoou Deus o dia sétimo e santificou (o) visto que nele descansou).
Observe que a atitude de Deus de abençoar, separar, consagrar o dia sétimo está relacionada ao fato de ter Deus descansado. Os outros dias são abençoados? É lógico que sim! Mas o sétimo dia assume caráter diferencial, Existe uma teologia do sábado? Uma teologia do descanso?
O Senhor criou todas as coisas nos outros dias, e sua qualificação para os outros dias foi “que isto era bom”, mas só santificou o sétimo dia. Qual a razão disto? A razão disto é que o sábado é um convite para que toda a criação se alegre em tudo que Deus fez, descansando, desfrutando e adorando o Criador. Com isto, não se quer dizer que nos outros dias o homem não deve adorar a Deus, o homem nos outros dias deve executa as tarefas próprias do mandato cultural, não deixando de se lembrar do espiritual e do social. Mas no sábado, o homem deve parar, deve perceber que tudo girar em torno do Criador, Deus o convida ao deleite, ao descanso.
Wolff, afirma o seguinte sobre a questão do descanso
Aí temos o termo que dá seu nome ao dia do repouso no Antigo Testamento: tb;v'= parar o trabalho, cessar a atividade. De acordo com isso, deve-se passar o sábado em descanso do trabalho.

O decálogo faz menção do dia de descanso, e baseia-se na criação. Interessante observarmos aqui o caráter de continuidade, de progressividade da revelação e de sua organicidade, não é dado outro motivo no texto. Em Deuteronômio 5. 15 nos é dado o seguinte motivo para a guarda do dia de descanso: Porque te lembrarás que foste servo no Egito e que o Senhor, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o Senhor, teu Deus, te ordenou que guardasse o dia de sábado. Mudou o motivo? Ou a idéia de descanso, também envolve a idéia de libertação?
Cremos que a idéia do descanso também envolve a idéia de libertação, este conceito é bem patente numa teologia bíblica libertária, o povo devia guardar o dia de descanso, pois como eles foram escravos no Egito e eram explorados, eles deviam guardar a dia do descanso como memorial libertário do Senhor.
O Senhor não criou nenhuma criatura para a exploração, para o cativeiro, e sim para a libertação. O texto de Romanos 8. 20-21 fala da esperança da libertação da criação. O sábado aponta para algo maior. Aponta para a libertação. Destarte, os cristãos primitivos compreenderam bem este caráter libertário do sábado, quando perceberam que o seu dia de descanso, seria o primeiro dia da semana, pois lembrava a libertação promovida pelo Senhor Jesus.
O DIT faz o seguinte comentário:
Parece que os cristãos estavam certos ao associar o dia de descanso com a lembrança da ressurreição de Cristo. É ele quem dá liberdade. Na verdade, nessa questão não há nenhum conflito real entre Deuteronômio e Êxodo. Enquanto Deuteronômio tem em vista o povo da aliança, os versículos de Êxodo dão ênfase ao Deus da aliança

O sábado assume um caráter humanitário em relação às criaturas, que neste tempo sofrem as conseqüências do pecado do vice regente da criação, Adão. E neste caráter humanitário os animais param de trabalhar, param de servir ao homem, que muitas vezes pagam o trabalho dos animais com maus tratos. Seis dias farás a tua obra, mas, ao sétimo dia, descansarás; para que descanse o teu boi e o teu jumento Ex 23.12 (parte a do verso).
O sábado possui também um caráter escatológico na Pessoa bendita do Senhor Jesus, Ele é o nosso sábado, Ele é o nosso descanso, Ele é a certeza de que tudo será diferente. Neste sentido vemos a ligação intima de Apocalipse 22 com Gênesis 1-2. É à volta para o Parque das Delicias, é o gozo completo, sem exploração, sem violência, sem choro, sem Mamom e seus súditos. Onde veremos os aspectos do Reinado de Deus manifestos na terra, esta idéia de terra restaurada com videiras, animais em perfeita harmonia é a idéia de descanso que as Escrituras nos ensinam, é de fato a Terra Prometida, desejado por todos os santos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento.

CONCLUSÕES
A Lei é veículo de graça, como já disse o salmista: Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa Sl 19.11. Percebemos o quanto, o dispensacionalismo causou mal à igreja de Cristo.
Só um estudo sério da aliança e sua real compreensão pode tirar a igreja brasileira deste marasmo doutrinário, desta areia movediça que ela vive.
A compreensão correta da Lei se dará quando levarmos em considerações algumas coisas
1- A Lei não começa com Moisés, ela já existia, podemos ver sua origem quando o Senhor criou todas as coisas e deu mandatos a serem obedecidos.
2- Sendo assim, o homem quebra uma lei no Éden. Por isso, ele morre.
3- A graça salvífica se manifesta, quando no cap. 3 do Gênesis, onde deveria ter somente maldições, achamos graça.
4- Mesmo depois do pecado, à lei vêm conectadas várias disposições graciosas de Deus que visam abençoar o homem, e estas benções estão condicionadas à obediência da Lei.
5- Sendo assim, temos bênçãos que estão condicionadas à Pessoa do Senhor Jesus e benção condicionadas à nossa obediência da Lei
Devemos amar a Lei de Deus, pois ela é veículo de graça para as nossas vidas, da Igreja e da nação.

Rev. Jaziel C. Cunha

sábado, 27 de fevereiro de 2010

DESENVOLVIMENTO DA DOUTRINA TRINITÁRIA – PERSPECTIVAS NÃO ORTODOXAS (I- IV SÉCULO) NO PERÍODO DA PATRÍSTICA

Antes de considerarmos toda a extensão do desenvolvimento, se faz mister entender que toda a problemática deve-se a um consenso comum entre todos aqueles que professam a fé: Há um Deus! A grande questão durante a história era saber como este Deus se manifestou. A crença judaica dizia que Ele era Único, mas o que viria a ser único?
Stanley Rosenthal no seu livreto faz a seguinte consideração:
O povo judaico com freqüência faz a objeção a tri-unidade de Deus por causa daquilo que acreditam ser-lhes ensinado no Shema (Dt 6.4)... A palavra Shema é o primeiro vocábulo hebraico dessa passagem, e significa “ouve”. A premissa aceita entre os judeus é que essa declaração ensina que Deus é indivisivelmente uno...

Já nesta consideração, as coisas não se mostram tão simples como poderíamos presumir, este problema residiu dentro da Igreja Cristã durante todo o período conhecido como: Patristico .
Passaremos a considerar neste primeiro capitulo as concepções erradas do primeiro ao quarto século da nossa era. Pois é neste período, que existe uma verdadeira efervescência a respeito do desenvolvimento de idéias a respeito do Pai e de sua relação com o Filho e com o Espírito Santo, e de como a Igreja trabalhou os novos dados da revelação Neo Testamentária, passaremos a abordar primeiro as concepções não ortodoxas, pois são elas que provocaram uma reflexão teológica mais profunda, culminando na Ortodoxia Trinitariana.

1.1- Concepções Erradas da Doutrina no Primeiro e Segundo Século

A nossa primeira consideração é a respeito de Cerinto. Juntamente com ele, outros movimentos surgiram dentro da Igreja neste período. Não seria aconselhável classificarmos de heresias as idéias que vão surgindo sobre a Trindade e suas relações internas, pois estes homens e seus pensamentos que no decorrer desde capitulo serão analisados estavam convictos de estarem fazendo o correto. É fácil hoje falar em ortodoxia, pois a Igreja já se posicionou de forma dogmática a respeito da Trindade e suas relações, então o problema de nomear como heresia, qualquer concepção a respeito da Trindade e suas relações surgir porque pra sermos honestos, não podemos falar em ortodoxia dogmática quando a ortodoxia estava em desenvolvimento.

1.1.1- Cerinto: Jesus não é Deus

Por que começar discutindo uma questão que é basicamente Cristológica? Cremos que não se tenha como desvencilhar a questão Cristológica da Tri-Unidade de Deus, pelo simples fato de que: Negar a Natureza Divina de Cristo, é negar a Pessoa Teantropica, e em suma, negar a base da Trindade.
McGrath em sua obra, diz o seguinte sobre isto:
Pois se Jesus é considerado como aquele que é um em substância com Deus, então toda a doutrina sobre Deus deve ser revista à luz dessa crença. Por esse motivo, o desenvolvimento histórico da doutrina da trindade é considerado posterior ao surgimento de um consenso Cristológico no seio da Igreja. Somente quando a divindade de Cristo pode ser encarada como um ponto de partida, comum e indubitável, foi possível dar início à especulação teológica sobre a natureza de Deus

Segundo o Dicionário Patristico, Cerinto foi “Apresentado como um típico gnóstico, a sustentar que o mundo não fora criado por Deus, mas por algumas forças inferiores, que Cristo descera sobre o homem Jesus e que os anjos eram responsáveis pela lei” .
Frangiotti citando Irineu diz:
Certo Cerinto, na Ásia, ensinou a doutrina seguinte: Não foi o primeiro Deus quem fez o mundo, mas uma Virtude (Potência) separada por uma distância considerável da Suprema Virtude (Potências-Princípio) que está acima de todas as coisas e ignorando o Deus que está acima de tudo. Jesus não nasceu de uma virgem porque isso lhe parece impossível, mas fora filho de José e de Maria por uma geração semelhante à de todos os outros homens, e ele suplantou a todos pela justiça, prudência e sabedoria

As idéias de Cerinto não eram propriedade exclusiva dele, os ebionitas também tinha idéias semelhantes, é interessante observar que ambos, tanto Cerinto quanto os ebionitas são contemporâneos do Iª século. Berkhof diz o seguinte:
Sua idéia de Cristo era similar à de Cerinto, O que provavelmente se devia ao desejo que tinham de manter o monoteísmo do Velho Testamento. Negavam tanto a divindade de Cristo como seu nascimento virginal, na opinião deles, Jesus se distinguia de outros somente por uma estrita observância da lei, tendo sido escolhido como Messias por causa de Sua piedade legal .
Frangiotti continua dizendo:
Trata-se de um gnosticismo judaizante provocado pelas especulações correntes em meio ao judaísmo. Assim, Cerinto distinguia Jesus do cristo. Este era um dos Eões (Potentados-Virtudes) superiores que havia descido dos céus sobre o homem Jesus, filho do Demiurgo e o abandonou a partir da paixão

Cerinto foi um entrave tão grande na Igreja Cristã Primitiva, que a história registrada por Irineu diz:
Vive ainda irmão (diz Irineu) que o ouviram (a Policarpo) relatar como João, o discípulo do senhor, entrando nas termas de Éfeso e ai vendo a Cerinto, se precipitou para fora sem se banhar, dizendo: Fujamos, antes que se desmoronem as termas, pois ali está Cerinto, o inimigo da verdade

1.1.2- O que foi o Adocianismo?
A fé cristã é monoteísta, Jesus era o Messias, aquele que veio introduzir o os valores do Reino de Deus. Além disto, Jesus se revelou como Deus, não se revelou como profeta, mestre ou sacerdote. Não! Ele ressaltou a sua divindade, como a igreja trabalharia a idéia do monoteísmo como era então concebida os novos dados da revelação? Estas duas informações aparentemente inconsistentes? No começo da Igreja, havia uma dificuldade em sistematizar tais idéias, e por causa disto surgiram explicações que durante o desenvolvimento da doutrina, ficaram conhecidas como heréticas, iremos estudar o adocianismo, que também é conhecida como Monarquianismo Dinâmico, mas antes de vermos o que foi este movimento, mostraremos as primeiras concepções de fé da igreja. Kelly em seu livro, afirma o seguinte:
Os credos clássicos da cristandade iniciavam com uma declaração de crença num só Deus, criador dos céus e da terra. A idéia monoteísta, fundamentada na religião de Israel, pairava sobre a mente dos primeiros pais; mesmo não sendo teólogos reflexivos, tinham plena consciência de que ela marcava a linha divisória entre a igreja e o paganismo

Kelly ainda diz:
A doutrina de um só Deus, Pai e Criador, constituíram o pano de fundo e a premissa inquestionável da fé da igreja. Herdada do judaísmo, ela foi sua proteção contra o politeísmo pagão. O emanacionismo gnostico e o dualismo marcionita. Para a teologia o problema era integrá-la no âmbito intelectual com os novos dados da revelação especificamente cristã. Reduzidos à sua formulação mais simples, tratavam-se das convicções de que Deus se havia dado a conhecer na Pessoa de Jesus, o Messias ressuscitando-O dos mortos e oferecendo salvação aos homens por Seu intermédio, e que Ele havia derramado Seu Santo Espírito sobre a Igreja

Vimos como a fé cristã nesta época se portava, mas em meio a muitas elucubrações teológicas surgi o adocianismo. Veja o que Frangiotti diz:
Mas, pelos fins do século II, alguns começam a tentar definir com mais precisão quem era Jesus, qual era, realmente, sua relação com Deus. Entre os que procuravam estabelecer uma definição, estava Teódoto de Bizâncio, o Curtidor, o primeiro a sistematizar e a defender o adocianismo: Jesus era puro homem, nascido naturalmente da Virgem, o qual, no batismo, havia recebido uma força especial. Quando o acusaram de ter renegado a fé, por ocasião de uma perseguição, justificou-se dizendo que não negara nada mais que um homem (Jesus)

Então, na concepção adocianista, Jesus não tinha nascido com uma natureza divina. Ele recebera algo, que não era nato Dele. Embora Teódoto de Bizâncio concordasse plenamente com as idéias ortodoxas sobre a criação do mundo e a onipotência divina. Para ele Jesus viveu como um homem comum, com a diferença de ter sido extremamente virtuoso. O Espírito, ou Cristo, desceu então sobre Ele, e a partir daquele momento Ele passou a operar milagres, sem, contudo, torna-se divino. Kelly diz que “já outros da mesma escola admitiam Sua deificação após a ressurreição” .
Frangiotti ainda diz:
Esta cristologia adocianista tinha Jesus como homem de extraordinária virtude, do qual Deus se serviu para implantar o reino. Interpretava “a relação Jesus-Deus segundo a mentalidade e as tradições judaicas do profetismo: Jesus é o homem de Deus”, inspirado e possuído pelo Espírito de Deus na força do qual opera a tarefa messiânica. Nesta perspectiva, a ressurreição não é prova de sua divindade, mas o modo como Deus legitima a pessoa e a obra de Jesus, credenciando-o definitivamente como Messias de Israel

Na concepção adocianista, Cristo não passa de um simples homem revestido de poder divino. Teódoto de Bizâncio e seus seguidores estavam muito absorvidos na exegese bíblica e na crítica textual, e apelavam a textos como Dt. 18.15 e Lc 1.35, a fim de sustentar sua afirmação de que Jesus fora um homem comum inspirado pelo Espírito, em vez de habitado por Ele. O próprio Teódoto foi excomungado pelo papa Vítor.

1.1.3- O Adocianismo de Hermas

Hermas foi um pai apostólico.
Os Pais apostólicos são os Pais que se supõem ter vivido antes da morte do ultimo dos apóstolos, sobre os quais se diz que alguns foram discípulos dos apóstolos, e a quem são atribuídos os mais antigos escritos cristãos existentes.
A teologia neste período estava se desenvolvendo, Hermes se preocupava com o arrependimento e a soberania do Deus único e criador, Kelly tecendo comentário a respeito dele diz “ele não menciona o nome de Jesus em nenhum lugar e analisa Sua Pessoa apenas em duas de suas Similitudes” .
Kelly descrevendo a primeira Similitude diz:
A primeira, uma parábola obviamente moldada com base em outra do evangelho, conta a história de um proprietário rural que, durante a ausência, confiou sua vinha a um servo e que, ao voltar, ficou tão satisfeito com sua administração que, depois de consultar seu filho e herdeiro amado, decidiu fazê-lo co-herdeiro com o filho. O dono das terras explica Hermes, é o Criador; a propriedade, o mundo; e o servo, o filho de Deus; o filho amado do proprietário das terras inferimos é o Espírito Santo

Por esta similitude, podemos observar: Quão conceito estranho é este que o Pai dava para Jesus, e também para o Espírito.
Podemos observar o quanto a idéia do adocianismo está presente de forma muito explicita em Hermes.
Como alguém que disse isso, poderia ser considerado Pai? A grande questão é que a regra de medir a ortodoxia quanto a este assunto só ficou decidida nos Concílios Posteriores. Em Nicéia e Constantinopla, ambos no século IV. Sendo assim, fica difícil dizer de forma definitiva, o quanto é heresia ou não
Kelly comenta sobre Hermes o seguinte:
Hermas pensa claramente em três personagens distintos – o senhor, isto é, Deus Pai; seu “filho amado”, o Espírito Santo; e o servo, o Filho de Deus, Jesus Cristo. Aparentemente, contudo, a distinção entre os três remonta à encarnação; enquanto preexistente, o Filho de Deus é identificado com o espírito Santo, e, assim, antes da encarnação teria havido apenas duas pessoas divinas, o Pai e o Espírito. A terceira, o Salvador ou Senhor, foi elevada à condição de companheiro das outras duas como recompensa por seus méritos, ao cooperar admiravelmente com o Espírito preexistente que habitava nela “Portanto a teologia de Hermes era uma mistura binitarismo e adocianismo, embora tenha feito uma tentativa de se conformar a formula triadica aceita na igreja”
Frangiotti também comenta e diz:
Percebe-se que a concepção cristológica de Hermes é mais primitiva que outros textos do judeu cristianismo: Jesus, durante sua vida terrena, ainda não é Filho, mas adquire esta dignidade como recompensa por sua atuação fiel. Ele é, pois, constituído Filho, não no seu batismo, como faziam alguns grupos de cristãos, mas na ressurreição. Não há nenhuma especulação em termos de relacionar Jesus com o Logos. Hermas elabora uma cristologia independente de Paulo e de João

1.1.4- O Adocianismo Ebionita

O adocianismo se confundiu na História com o ebionismo, tanto que os antigos consideraram o adocianismo uma heresia de tipo judaico e o relacionaram com o ebionismo, porquanto os adocianistas, como os judeus, não reconheciam o caráter divino de Cristo e o reduziam à simples homem. Heber, em seu livro, diz o seguinte:
O ebionismo é todo movimento que, de alguma forma, procura negar a plena divindade de Jesus Cristo. Esta é a heresia cristológica mais antiga na história da Igreja. Geralmente falando, o ebionismo é uma espécie de judaísmo cristianizado, ou um cristianismo que retrocedeu para tendências judaizantes.

Irineu de Lião têm o seguinte parecer sobre eles:
Os que se chamam ebionitas admitem que o mundo foi feito pelo verdadeiro Deus, mas, quanto ao que diz respeito ao Senhor, professam as mesmas opiniões que Cerinto e Carpócrafes. Utilizam somente o evangelho de Mateus, rejeitam o apóstolo Paulo, que acusam de apostasia a respeito da lei. Aplicam-se a comentar as profecias com uma minúcia excessiva. Praticam a circuncisão e perseveram nos costumes legais e nas práticas judaicas, aponto de ir até adorar em Jerusalém, como sendo a Casa de Deus

Os ebionitas interpretavam as expressões “Filho de Deus”, “Verbo”, “Espírito Santo”, segundo as categorias hebraicas, no sentido em que nenhuma delas era considerada “pessoa”, no sentido filosófico, ontológico. Mesmo aqueles entre eles que aceitava que Jesus tivesse nascido de uma virgem por obra do Espírito Santo, negavam sua preexistência como Verbo de Deus.
É a idéia do homem normal, que por receber de Deus uma comissão se torna diferenciado. È importante ressaltar que toda esta atitude contra a Divindade de Jesus partia de uma incapacidade que tinham de conciliar os novos dados da revelação com o desejo profundo de manter o monoteísmo.

1.2- Concepções Erradas da Doutrina no Terceiro Século

Várias tendências estavam dentro da igreja. O terceiro século tem características bem interessantes, este é um momento ímpar, é o século que antecede o Concílio de Nicéia, onde a questão ontológica da Trindade seria abordada, A História eclesiástica mostrará que o problema não se resolveria por completo, mas a Igreja iria se posicionar. E de fato, ela fez isto.

1.2.1- O que foi o Monarquianismo

Se a grande heresia do século II d.C foi o gnosticismo, a mais destacada heresia do século III foi o monarquianismo. Esta concepção não é nova, ela tem raízes dentro do ebionismo, adocianismo e estas influências vão gerar um tipo de monarquianismo chamado dinâmico. Por outro lado, começa a existir outra forma de monarquianismo que é apelidada de monarquianismo modalista, ou patripassianismo que é como os latinos denominavam no ocidente os monarquianistas. As duas formas são bem distintas. A doutrina dos apolegetas, dos Pais anti-gnosticos e dos Pais alexandrinos sobre o Logos, não provia satisfação plena. No que predominava o interesse teológico, a doutrina do Logos como Pessoa divina distinguida, parecia ameaça à unidade de Deus ou o monoteísmo. Homens eruditos procuraram resolver a questão, sendo assim dois rumos foram tomados: O primeiro negava qualquer divindade e o outro fazia distinções em nível de modos dentro da Trindade.
Frangiotti diz o seguinte:
Partindo da fé inamovível da unidade de Deus, do monoteísmo restrito, repetia como em refrão: Monarchiam tenemus. Na seqüência das tendências judaizantes, não abriam mão do monoteísmo judaico, mas por outro lado, aceitavam a divindade de Jesus Cristo. Como conciliar, então, este paradoxo? Como admitir a divindade de Jesus Cristo sem trair a fidelidade monoteísta?

Começamos a ver aqui o nascedouro de um dilema, enquanto o adocianismo às vezes chamado de ebionismo, nega por completo a natureza divina no Senhor, o monarquianismo já aceita a natureza divina, mas como conciliar: Monoteísmo, com esta nova posição, que era decorrente da revelação que o Senhor tinha feito?
Frangiotti comentando este dilema diz:
Como admitir a divindade de Jesus Cristo sem trair a fidelidade monoteísta? Para eles, distinguir, em Deus, pessoas diferentes na unidade da divindade, parecia-lhes admitir mais um Deus. Desse modo, Jesus Cristo seria um segundo Deus (deutero theós). Não lhes era possível esta afirmação. Portanto, se só há um Deus, e se Jesus cristo é deus, então só pode ser aceito se este Jesus for o Pai, numa forma ou modalidade especial

Acerca do monarquianismo, vamos considerar algumas ramificações:

1.2.2- Monarquianismo de Noeto
Quem era Noeto? Era natural de Esmirna, conterrâneo de Policarpo, era um homem cheio de orgulho, convicto de ser inspirado pelo Espírito Santo, não tencionava destruir a Igreja ou lhe ser adversário. Fazendo uma hermenêutica de textos como: Ex 3.6; 20.3; Is 44.6; Rm 9.5. Ele concluía que o Pai é Cristo, Ele é o Filho, foi gerado, sofreu e ressuscitou.
Frangiotti citando Hipolito de Roma diz o seguinte:
Cristo, diz ele, é o Pai mesmo, e é o Pai mesmo que nasceu que sofreu e que morreu. Quanto a si, pretendia ser Moisés e seu irmão Aarão. Os santos presbíteros o chamaram e o interrogaram diante de toda a igreja. Ele, primeiro negou. Mas, mais tarde, quis sustentar abertamente a sua doutrina. Os santos presbíteros o convocaram novamente e o refutaram.

Kelly citando Hipólito de Roma que era contemporâneo de Noeto diz: “Que eles acreditavam numa só Divindade idêntica que poderia ser indiferentemente designada como Pai ou Filho, os termos não representam distinções reais, sendo meros nomes aplicáveis em épocas diferentes”
Noeto foi o primeiro teólogo a declarar formalmente a posição monarquiana patripassiana, como o modalismo era chamado no Ocidente.

1.2.3 – Monarquianismo Patripassianista

Como já foi citado, era desta forma que os latinos denominavam o Monarquianismo Modalista, e assim o faziam por causa da ênfase que era dada à figura do Pai. Faz-se necessário ressaltar que a idéia era: a manutenção do monoteísmo, sendo assim, todo o raciocínio concentrava-se na figura do Pai.
Patripassianismo quer dizer: Pater: Pai + Passio: Sofre, ou seja, o Deus Pai sofre na cruz ou ainda: hyopáteres: Hios: Filho + Pater: Pai, O filho é o Pai. Na própria definição do termo está contida a idéia do monarquianismo de preservar o do monoteísmo com os novos dados da revelação
Teve como expoentes: Noeto, Práxeas e Sabélio, todos eles em Roma.
McGraeth dá o seguinte histórico:
Surgiu no século III associada a escritores como Noeto, Praxeas e Sabélio. Concentrava-se na crença de que o Pai sofrera como o Filho. Em outras palavras, o sofrimento de Cristo na cruz deve ser considerado como o sofrimento do Pai. De acordo com esses escritores, a única diferença em relação às pessoas da Trindade dava-se em relação a uma diversidade de métodos e ações, de forma que Pai, filho e Espírito eram apenas maneiras ou expressões distintas de ser de uma única e mesma divindade

Frangiotti diz que:
Segundo Tertuliano, Práxeas foi o primeiro a levar da Ásia para Roma o monarquianismo patripassiano. Práxeas havia passado algum tempo na prisão em decorrência de sua fé, e uma vez libertado dirigiu-se a Roma, no ano de 190, onde começou a tirar vantagem de sua condição de confessor, isto é, de alguém que sofrera por causa da fé.

Nesta época ele começa atacar os montanistas e em especial a Tertuliano que era ainda um montanista convicto, o mesmo, tendo sua ira provocada disse:
O demônio tem lutado contra a verdade de muitas maneiras, inclusive defendendo-a para melhor destrui-la. Ele defende a unidade de Deus, o Onipotente Criador do universo, com o fim exclusivo de torná-la herética. Afirma que o próprio Pai desceu ao seio da virgem, dela nascendo, e que o próprio Pai sofreu; que o Pai, em suma, foi pessoalmente Jesus Cristo... Práxeas foi quem trouxe esta heresia da Ásia para Roma... Práxeas expulsou o Paráclito e crucificou o Pai.

Kelly diz o seguinte:
Já na época de Justino, ouvimos falar de objeções a seu ensino de que o Logos era algo numericamente diferente em relação ao Pai; os críticos sustentavam que o Poder proveniente da divindade era distinto apenas verbalmente ou no nome, sendo uma projeção do próprio Pai.

Nos atuais livros de História da Igreja, o termo mais adotado para o Patripassianismo é Monarquianismo Modalista, talvez por ser de pronúncia mais fácil, todavia o que vemos é a grande questão da sistematização desses novos dados. Tanto a Igreja do Oriente quanto a do Ocidente, precisavam urgentemente formular uma doutrina satisfatória.
Faz-se necessário definirmos, de forma simples, alguns termos usados nos livros de História da Igreja:
Monarquianismo: Ênfase na Unidade de Deus; Patripassianismo: Identifica o Filho com O Pai; Sabelianismo: Um só Deus em três manifestações cronológicas.
No Oriente o Patripassianismo recebe o nome Monarquianismo Modalista. Este monarquianismo irá se desenvolver com Sabélio e assumirá uma forma de modalismo mais complexa.
Heber, em seu livro, fala o seguinte:
Contrariamente ao que pensamos os cristãos patripassianos não eram em pequeno número. Tertuliano na sua obra Adversus Praxean (contra Práxeas), diz que os patripassianos eram a maioria no seu tempo, e consistiam principalmente de pessoas ignorantes e de raciocínio simples

Hilário de Poitiers em seu livro fazendo um resumo da crença patripassianista diz:
Alguns corrompem de tal forma o mistério da fé evangélica que, sob a única pia profissão de um só deus, renegam o nascimento do deus Unigênito, dizendo tratar-se antes de uma extensão até o homem do que de uma descida. Negam que Aquele que foi Filho do Homem, tendo no tempo assumido a carne, tenha sido sempre e seja agora o mesmo Filho de Deus. Dizem que não há nele o nascimento de Deus, mas que é o mesmo que procede de si mesmo. Pretendem que o Pai se tenha estendido a si mesmo, como Filho, ate a Virgem, de modo que a sucessão que leva de Deus, tal como é em si mesmo, até a carne permita guardar a inviolável a fé no único Deus.

A grande diferença entre o patripassianismo ou monarquianismo modalista e o adocianismo ou monarquianismo dinâmico é que o primeiro mantinha a deidade verdadeira de Cristo enquanto o segundo dizia que Ele era mero homem, mas se entenda por deidade de Cristo, não a concepção ortodoxa da igreja, mas o fato de Cristo ser uma manifestação de Deus.
Olson no seu livro diz o seguinte:
Modalistas posteriores empregariam as figuras e a linguagem do teatro grego e romano para ilustrar sua idéia da doutrina cristã correta da Trindade: um único ator ou atriz podia desempenhar três papeis na mesma peça de teatro, ao vestir máscaras diferentes. A palavra usada para designar a máscara das peças de teatro é a mesma freqüentemente usada para “pessoa”. Assim os modalista podiam dizer que, quando os cristãos confessaram a fé em “um só Deus em três pessoas” não estavam violando o monoteísmo judaico e grego porque as três pessoas são apenas mascaras que o único Deus usa no palco da história

1.2.4- Monarquianismo adocianista

Falar em monarquianismo adocianista sem falar em Paulo de Samósata é uma incoerência absurda. Pois bem, é necessário antes de tudo dizermos quem foi Paulo de Samósata.
Frangiotti diz o seguinte a respeito dele:
Sobre sua origem, sabe-se somente que era originário da Síria, da cidade de Samósata, vindo de uma família pobre. Com habilidade e astúcia, conseguiu juntar elevada fortuna. Habilidoso, sabia aproveitar as ocasiões. Numa dessas ocasiões, em 260, aproveitou-se para se elevar ao episcopado de Antioquia. Na época, acumulava o cargo de ministro do tesouro da rainha Zenóbia de Palmira. Amante do luxo e do fausto, enquadra-e perfeitamente entre aqueles bispos denunciados por Cipriano bispo de Cartago que descuidavam suas funções divinas e se faziam administradores de grandes propriedades.

Este era Paulo de Samósata. Mas porque ele foi tão famoso, e merecedor de destaque? È bom lembrar que o adocianismo não cria que Jesus fosse Deus, eles eram ebionitas, Jesus na melhor das hipóteses tinha sido um simples homem, sobre quem o Espírito havia descido, Paulo de Samósata pertence a uma geração posterior do monarquianismo dinâmico, Heber comentando diz o seguinte no seu livro.
As pressuposições de Paulo de Samósata eram as seguintes:
1- Deus é essencialmente um, mas também é uma pessoa. Como é típico do monarquianismo, o fundamento essencial é o unitarismo e não o trinitarismo.
2- O Logos (Filho) e o Espírito não são pessoas distintas. O Espírito é um atributo, uma espécie de dynamis (poder) de Deus, um atributo impessoal em Deus. O Filho não é ontologicamente Deus, mas recebe o dynamis de Deus na sua experiência do batismo, sendo elevado a uma categoria divina. Portanto é chamado monarquianismo dinâmico porque o homem Jesus recebe o dynamis de Deus e é elevado a uma posição que não possuía antes

O pensamento de Paulo de Samósata faz uso da nomenclatura ortodoxa da igreja e dá a ela uma nova leitura, e isto poderia confundir os menos desavisados, há quem diga que, apesar desta sistemática ele continuava um rigoroso unitário, Como unitário ele não pode comprometer o conceito que ele tinha de Deus, Jesus é visto não com Deus, mas recebe poder para ser como Deus. Veja o que Heber diz sobre isto:
Dessa forma, Paulo de Samósata assevera que o Logos vem a ser homoousios (da mesma essência) ou consusbitancial com o Pai, mas o Logos não é uma pessoa distinta da divindade. Paulo de Samósata entendeu o termo “ousia” no sentido de pessoa, e não de natureza ou essência. Portanto, no seu pensamento, o Logos é uma pessoa com o Pai, sendo da mesma “ousia”. O seu uso de homoousios veio a significar que o Logos (Filho) foi uma única pessoa com o Pai, negando, assim, a Trindade. O Logos poderia ser identificado com deus porque existia nele da mesma forma que a razão existe no homem. O Logos é, portanto, um poder impessoal presente em todos os homens, mas particularmente no homem Jesus.

Kelly diz:
Paulo não disse que era a Palavra auto-subsistente que estava em Cristo, mas aplicou o título “Palavra” ao mandamento e á ordenança de Deus, isto é, Deus determinou aquilo que desejava por intermédio do homem, e assim o fez... Ele não disse que Pai, Filho e Espírito santo são o mesmo único ser, mas deu o nome de Deus ao Pai que criou todas as coisas, de Filho ao simples homem e de Espírito à graça que habitou nos apóstolos. Se verdadeiro isso sugere que ele estava disposto a usar a formula trinitária oficialmente aceita, mas apenas como um véu para ocultar uma teologia que na realidade era unitária

Existem uns dados, bem curiosos acerca deste homem, que atestam bem seu caráter, Frangiotti diz:
Em 264, realizou-se um sínodo, em Cesárea da Capadócia, cujo resultado foi a “conversão” de Paulo. Para segurá-lo na ortodoxia, os bispos redigiram uma fórmula de fé à qual Paulo foi obrigado a subscrever. Mas, dissimulado, após o sínodo, voltou à vida anterior, de fausto, luxo e licenciosidade. Revoltados os bispos convocaram um segundo sínodo com a decisão de condená-lo definitivamente. Obrigado a comparecer à assembléia, Paulo tentou defender sua doutrina com artimanhas, mas acabou sendo excomungado com herético e deposto da sede episcopal

1.2.5- Sabelianismo

O que Paulo de Samósata representa para o monarquianismo adocianista ou dinâmico, Sabélio representa para o monarquianismo modalista como era conhecido no Oriente ou Patripassianismo como era conhecido no Ocidente.
Quem era Sabélio ?
Sabélio era rígido defensor da monarquia divina, ele apresentava a divindade como uma mônada que se dilatava em três operações distintas: Pai no AT; Filho na encarnação e Espírito Santo, no Pentecoste. Interessante como essa leitura é feita em alguns segmentos da igreja moderna. E isto é um fato bem fácil de provar, veja o que McGrath diz:
Entretanto, outra forma de modalismo pode ser identificada, a qual tem se revelado de extrema importância, em distintos momentos da história cristã. Poderíamos chamá-la de modalismo funcional, a crença de que o mesmo Deus age de três maneiras distintas em determinados momentos da história. Assim, as três pessoas da Trindade designam distintos aspectos da atividade de um mesmo Deus. De forma simples, o modalismo funcional poderia ser assim definido: Deus Pai é o Criador; Deus Filho é o Redentor e Deus Espírito Santo é o Santificador

O modalismo tem algo atrativo nele, é o fato de simplificar as coisas. Ele se tornou muito popular, como vimos suas raízes estão presentes hoje na igreja, naquela época não podia ser diferente, Frangiotti diz:
A proposta de Sabélio simplificava as questões a respeito da Trindade. O monarquianismo teve grande sucesso, especialmente entre os simples, aponto de se tornar popular: Preservava o monoteísmo e não deixava dúvidas sobre o número de deuses ou de pessoas em Deus

Poderíamos sistematizar o sabelianismo ou modalismo como queiram da seguinte forma:
1- Deus é essencialmente um. O modalismo começa com a unidade de Deus, afirmando um só Deus, mas também uma só pessoa, nega, portanto, a sua tri personalidade
2- A trindade é vista somente de maneira revel acional ou econômica. Deus revelou-se de três modos diferentes ou agiu de três modos diferentes. Não existe Trindade ontológica
3- Pai, Filho e Espírito Santo não são três Pessoas, mas três modos de manifestação de Deus
4- O primeiro modo é o Pai, o segundo é o Filho e o terceiro modo é o Espírito e um detalhe. Nunca os três modos aparecem simultaneamente, mas sucessivamente.
Sabelio “é uma figura tão distintiva, que antes dele, o patripassianismo de Noeto, e de Praxeas, Kelly chama de “ingenuidade desse primeiro modalismo” Sabélio é quem dá uma estrutura mais sistemática e filosófica ao modalismo.
Frangiotti diz que a heresia sabeliana “sobreviveu até pelos fins do século IV” , historicamente pode até ser, como já foi dito, o sabelianismo vive, aparece hoje em formas mais simplificadas e em outros casos em formas mais sofisticadas, McGrath cita um teólogo chamado “John Macquarrie como modalista funcional”

1.2.6- Trinitarianismo e Subordinacionismo de Orígenes

Quem foi Orígenes?
Sendo um grande gênio e estudioso de renome que produziu aproximadamente oitocentos tratados para sua escola de catequese. Foi um dissidente que desafiou os líderes eclesiásticos e, embora exaltasse a grande tradição dos ensinos proféticos e apostólicos como a medida para toda a verdade, foi acusado de separar-se da igreja de Alexandria e de desviar-se dos ensinos ortodoxos geralmente aceitos. Ensinou algumas doutrinas como: Pré-existência da alma, apokatastasis. Tinha uma concepção em relação à Trindade que segundo Olson “montaram palco para as grandes controvérsias que surgiram um século depois de sua morte”
A influência de Orígenes foi tanta, que antes de Nicéia prevalecia, segundo Kelly, “dois tipos de origenismo, um cauteloso e moderado e o outro mais radical”
E Olson diz mais ”Um ou dois séculos após a morte de Orígenes tanto os arqui-hereges quanto os campeões da ortodoxia apelaram a ele como mentor”
Mas que pensamento era esse que influenciou tanto a respeito de Trindade? Segundo Olson:
Por um lado, Orígenes nunca se cansou em afirmar e asseverar, em termos bem claros, a divindade absoluta do Logos que se tornou Jesus Cristo como eterna e igual á do Deus Pai. Por outro lado, ele repetidamente também caiu na armadilha do subordinacionismo, a tendência de reduzir o Logos a algo inferior ao Pai. O Espírito Santo foi negligenciado, e quase que totalmente desconsiderado, nas cogitações trinitárias de Orígenes

Não é sem motivo que seus escritos provocaram tanto discussões e controvérsias. Kelly diz o seguinte, sobre seu trinitarianismo e subordinacionismo
O Trinitarianismo de Orígenes foi uma brilhante reinterpretação, em termos do mesmo medioplatonismo, da tradicional regra triádica de fé, com a qual ele estava comprometido como ministro. No topo de seu sistema, na condição de fonte e alvo de toda a existência, transcendendo a mente e o seu próprio ser, ele colocou Deus Pai, totalmente Mônada e, também, se é que passo expressa-lo desse modo, Hênada Sé Ele é Deus no sentido estrito (autotheos), só Ele é ingerado (agennetos) e é significativo que cristo tivesse falado Dele como o único Deus verdadeiro (Jo 17.3) Sendo bondade e poder perfeitos, Ele sempre deve ter tido objetos sobre quais exercia esses atributos, de maneira que trouxe á existência um mundo de seres espirituais, u almas, coeternas consigo mesmo. Contudo, para fazer mediação entre Sua unidade absoluta e a multiplicidade de tais seres. Ele tem Seu filho, Sua imagem expressa, o ponto de encontro de uma pluralidade de aspectos... Estando fora do tempo e sendo imutável, o Pai gera o Filho mediante um ato eterno de maneira que não se pode dizer que “houve um tempo quando Ele não existia”, além disso, o Filho é Deus, embora Sua deidade seja derivada e, assim, Ele é um Deus secundário.

A questão da subordinação reside na finalidade, Deus gera Jesus com uma finalidade: De criar o mundo através Dele. O Filho lhe era subordinado, da mesma forma o Espírito, Frangiotti diz o seguinte:
De fato, embora afirme a comunidade de substância entre o Pai e o filho, Orígenes não deixa de mostrar certa dependência e inferioridade do filho em relação ao Pai: Nós que cremos no salvador quando disse: O Pai, que me enviou, é maior do que eu e por esta mesma razão não permite que se lhe aplique o apelido de “bom”em seu sentido pleno, verdadeiro e perfeito, dizemos que O Salvador e o espírito Santo estão muito acima de todas as coisas criadas, com uma superioridade absoluta sem comparação possível; porém, dizemos também que o Pai está acima deles tanto mais do que estão por cima das criaturas mais perfeitas... Desde o momento em que proclamamos que o mundo visível está sob o poder do Criador de todas as coisas, afirmamos que o Filho não é mais poderoso do que o Pai, antes, bem inferior a ele. Das relações entre o Pai e o filho, diz Orígenes: deus Pai, que tudo abrange, chega até cada um dos seres, fazendo-os participar do seu ser e fazendo-os ser o que são. O filho é inferior em relação ao Pai, alcançando somente as criaturas racionais; com efeito, ele é segundo depois do Pai. Ainda inferior é o Espírito Santo, que só chega aos santos. Por isso, o poder do Pai é maior do que o do Filho e do Espírito Santo; o Espírito Santo, por seu turno, é superior em relação ao dos outros santos

Tudo isto viria se manifestar no próximo século, em origenistas radicais e moderados

1.3- Concepções Erradas da Doutrina no Quarto Século

O fim do terceiro século marcou o encerramento da primeira grande fase de desenvolvimento doutrinário. Como se pode observar há durante a história um desenvolvimento de várias concepções a respeito do papel e lugar de Jesus, era Deus-Homem? Era somente homem? Foi divinizado? Era Deus, só que de uma categoria inferior? Jesus era uma pessoa diferente do Pai? Será que a definição Pai, Filho não seria modos de agir?
Neste século surgi o ensinamento de Ário, e a heresia de Macedônio

1.3.1- O Ensino de Ário

Quem foi Ário ?
Este era Ário, discipulo de Luciano que por sua vez, tinha sido influenciado por Paulo de Samosata, o herege adocianista, Ário era presbítero de Alexandria e consequentemente teve forte influência de Origenes, é interessante a ligação, Alexandria não era um bom lugar para influências, o discipulo de Origenes um tal Dionisio de Alexandria ensinava abertamente que o Filho era de uma essência diferente do Pai, Hodge diz:
Não passou muito tempo, portanto, antes que Ário, outro presbitero de Alexandria, afirmasse publicamente que o Filho não era eterno, mas posterior ao Pai; que fora criado não da substância de Deus, e por isso não era homousios com o Pai. Admitia que o filho existira antes de qualquer outra criatura, e por meio dele Deus criara o mundo

Poderíamos sistematizar os ensinamentos de Ário da seguinte forma:
A Premissa fundamental de seu ensino é a afirmação da singularidade e da transcendência absolutas de Deus, a fonte não originada de toda a realidade; Na condição de criatura, o Filho deve ter tido um começo; O Filho não pode ter comunhão alguma com Seu Pai, aliás, nenhum conhecimento direto dEle. Embora seja a Palavra e a Sabedoria de Deus, Ele é distinto daquela Palavra e daquela sabedoria que pertence à propria essência de Deus; O Filho deve estar sujeito a mudanças e mesmo ao pecado
Sobre este último ponto, Kelly diz o seguinte: “Numa conferência, um doa arianos, supreendido por uma pergunta repentina, admitiu que Ele poderia ter caido como o diabo caiu e que, bem no íntimo, era nisso que eles acreditavam”
O Arianismo foi condenado no Concílio de Nicéia, em 325 AD, mas não ficou morto. Ele sobreviveu nas três decadas seguintes e teve um fortalecimento entre os anos 353 e 378, pois nesse tempo teve apoio imperial. Seu declinio ocorreu ao perder o apoio real, em 378 AD, e com o Concílio de Constantinopla, em 381 AD, que sustentou e fortaleceu a ortodoxia afirmada em Niceia.
Frangiotti levanta um dado interessante, ele diz que: “Após a morte de Ário, o arianismo se dividiu em várias tendências: Os Homeusianos admitiam que o Filho era de uma substância semelhante, mas não idêntica à do Pai; Os Anomeus afirmavam uma diferença radical entre Pai e Filho”
O arianismo foi derrotada no Concílio de Nicéia, mas isto não foi seu fim. Como já vimos, ele sobreviveu. Aqueles que não aceitaram a decisão de Nicéia foram banidos, no total de 17 bispos e uniram-se a Ário. Estes sob a ameaça acabaram por subscrever as decisões de Nicéia, apenas 2 bisps egípcios se recusaram a fazê-lo, o que lhe custou o exílio imediato.
Frangiotti traz um dado histórico importante, ele diz:
Constança, irmã do imperador, conquistada secretariamente pelo arianismo, trabalhando junto com Eusébio de Cesaréia, muito estimada por Cosntantino, consegue a suspensão do exílio de Euséio de Nicomédia. Uma vez na corte, Eusébio, conselheiro espiritual de Contança e muito influente nas rodas palacianas, começou, junto ao imnperador, um esforço para levantar o desterro de Ário. Eusébio assume a postura de novo líder do arianismo. Com o apoio de Cosntança, organiza todas as forças e dá prosseguimento á campanha contra os bispos ortodoxos católicos mais significativos. Vinga-se daqueles que o obrigaram a assinar a contragosto as decisões d Nicéia, voltando contra eles a violência do poder, especialmente contra Atanásio de Alexandria, conseguindo que seja exilado. Sucessivamente, consegue a deposição de Eustácio de antioquia, Atanásio de Alexandria e Marcelo de Ancira. Muitos outros sacerdotes tiveram a mesma sorte e se viram forçados a substituir a fórmula de fé de Nicéia pelas arianas. Em 331, consegue o retorno de àrio, com a intervenção especial de Cosntança. Em Constantinopla, Ário apresenta ao imperador uma fórmula de fé amibigua, aorfa, ams suficiente para salvá-lo do exílio. Tal era a situação quando ocorre a morte de Costantino, em 337

1.3.2- Os Antinicenos

Os antinicenos foram aqueles que se opuseram as diretrizes tomadas em Nicéia, entre eles haviam três tipos de teologias, a primeira indefinido, por vezes, ambíguos em questões cruciais, mas em geral conciliatório, refletindo a atitude do grande partido moderado.
Kelly diz: “Que os mais antigos credos do periodo oferecem exemplo disso, O credo do Concílio de Dedicação, de 341” De forte cunho anti-sabeliana, ele ataca as ideáis arianas, mais deixa brecha para formas da doutrina ariana mais sofisticadas.
A segunda teologia é especificamente ariana, um subproduto desta teologia foi o famigerado Segundo Credo, ou Blasfêmia de Sírmio 357 DC, embora não fala explicitamente em arianismo, ele revela uma tendência ariana inconfundivel, ele diz que existe: Duas pessoas a do Pai e a do Filho; o Pai é maior; e o Filho, subordinado.
A terceira teologia foi do tipo homoiousianismo que foi recebendo o numero cada vez maior de moderados, formou-se um partido sob a liderança de Basílio de Ancira e no Sínodo de Ancira 358 DC publicou-se o primeiro manifesto homoiousiano, Kelly diz que este documento declarava que: “Cristo não era uma criatura, mas Filho do Pai, pois criador e criatura são uma coisa e Pai e Filho constituem outra bem diferente” Mas o caráter homoiousiano deste partido é caracterizado pela seguinte declaração: “Mas a semelhnaça entre Pai e Filho não deve ser entendida como identidade, sendo outra ousia, o Filho pode ser como o Pai, mas não idêntico a Ele” è a grande questão da semelhança, não igualdade.
A.A. Hodge vai sistematizar da seguinte forma, as duas principais correntes dos antinicenos:
Os arianos que mantinham que o Filho de Deus é a maior de todas as criaturas, mais semelhantes a Deus do que qualquer outra, o unigênito Filho de Deus, criado antes de todos os éculos, por quem Deus criou todas as coisas, e divino só nesse sentido. Sustentavam que o filho era “heteroousion” de essência diferente, ou genericamente dissemelhante do Pai
O Partido médio, chamado semiarinos, que mantinham que o filho não é criatura, mas negavam que fosse Deus no memso sentido em que é o Pai, afirmavam que o Pai é o unico deus absoluto e auto-existente; e que, mao mesmo tempo e desde atoda a eternidade, fez proceder de Si, da Sua própria livre vontade, uma Pessoa divina, com a mesma natureza e as mesmas propriedades que Ele mesmo possui. Negavam, pois, que o filho fosse da mesma substância (homoousios) com o Pai, mas admitiam que é de uma essência realmente semelhante e derivada do Pai (homoiousios, de semelhante, e ousia substância) um só, genericamente, mas não numericamente

Estes eram as três teologias que os partidários antinicenos advogavam, a história vai dizer que mais tarde esta última teologia, a dos homoiousianos e seus adpetos por causa da atitude de Atanásio e Hilário, se tornaram mais flexíveis a teologia ortodoxa de Nicéia ou seja ao homoousianismo.

1.3.3- A Heresia de Macedônio

Quem era Macedônio ?
A heresia macedoniana ou pneumatomaquianos (opositores do Espírito) negavam a plena divindade do Espírito.
Kelly diz que não existe prova que ligue Macedônio a este movimento, diz “que nada comprova que ele tinha, de fato, alguma relação com os macedonianismo”
A disputa ariana agitava a mente das pessoas sobre a divindade plena do Filho, o credo que ficou formulado em Nicéia declarava simplesmente a crença no Espírito Santo, Berkhof vai dizer:
Até esse ponto não se tinham feito intensas considerações sobre o Espírito Santo, embora houvessem sido expressadas opiniões discordantes sobre o assunto. Ario afirmava que o Espírito Santo fora o primeiro ser criado pelo filho, opinião que se harmonizava bem como a de Origenes. Atanásio dizia que o espírito Santo é da mesma essência que o Pai, mas o credo Niceno contém apenas uma declaração indefinida: E (eu creio) no Espirito Santo.

Basílio, um dos Pais Capadocios disse que “a primeira menção de um debate sobre o Espírito Santo encontra-se na terceira carta de Atanásio ao bispo de Serapião de Thmuis, por volta do ano de 360” ele diz que a razão desse escrito é para combater os argumentos que afirmavam que o Espírito era uma criatura do Logos.
O Padre ortodoxo Theodoro no seu livro diz: “Eunômo, discípulo de Aécio, afirmava que o Espírito era uma criatura do Filho e este do Pai, o qual é Agennetos.”
Olson diz que “ Os macedonianos subordinavam o Espírito Santo ao Pai e ao Filho e argumentavam que o Espírito é um ser criado, uma força de Deus enviada pelo Pai por meio do filho, Jesus Cristo”
Basílio de Cesareia diz que seus argumentos se fundavam no fato de “ Não se devem dizem eles, pôs o Espírito Santo na mesma ordem que o Pai e o Filho, por causa da diferença de natureza e do grau inferior de dignidade”
Os pneumatômacos eram tão incoerentes que segundo Olson citando Basílio diz “ Que adoravam o Espírito Santo nas suas litúrgias divinas junto com Pai e o filho, o que seria blasfêmia se o Espirito Santo não fosse Deus”

O problema dos falsos mestres e o seu enfrentamento na Igreja Apostólica: Um estudo em 1-3 de João e Judas

INTRODUÇÃO
Alguns demônios vigiavam de perto um homem de boas intenções quando, de repente, ele se abaixou para pegar algo no chão. Aflitos, os demônios perguntavam entre si: O que ele encontrou o que ele encontrou?
Um pedaço da verdade, respondeu um deles. Quase todos eles ficaram muito preocupados: O que faremos? O mais experiente deles, porém, procurava acalmá-los: Não faremos nada. Fiquem calmos, não há com o que se preocupar. Como não? Afinal, ele achou um pedaço da verdade.
Não há com o que se preocupar, repetiu o demônio, vocês ainda não sabem o que um homem de boas intenções e apenas um pedaço da verdade pode fazer?
Não!
O de sempre, respondeu ele, uma nova heresia.

QUEM ERAM OS FALSOS MESTRES?
A Igreja cristã primitiva tinha problemas, um bom exemplo disto é a Carta aos Coríntios, além de problemas de ordem moral, litúrgica... Segundo o Doutor Roque Frangiotti, a Igreja também enfrentava alguns problemas de ordem de estrutura interna, eis o que ele diz
Pesquisas mais recente mostram que aquilo a que chamamos “cristianismo primitivo” era bem mais complexo do que a hipótese de Daniélou. Admite-se, cada vez mais que havia no interior destes grupos, pelo menos quatro tendências diferentes e até mesmo de oposição radical

Este dado é fundamental para compreendermos o fundo histórico que proporcionou o surgimento dos falsos mestres e de seus ensinos e conseqüente aceitabilidade de suas posições por parte de alguns. Frangiotti enumera as quatro tendências como “judaizante radical, judaizante moderada, helenista, helenista radical” Quando observamos isto, podemos responder questões do tipo: De onde os falsos mestres tiraram as influências para elaborarem suas doutrinas? Algumas das características dos helenistas radicais segundo Frangiotti eram
Motivados pela liberdade em Cristo, pregada e defendida por Paulo, pela fé que salva, não pelas obras da Lei, exageraram pelo lado oposto dos judaizantes. Rejeitavam radicalmente a Lei e alimentavam posicionamentos hostis ao judaísmo. Exageravam tanto a liberdade, a ponto de participar dos cultos pagãos e se rebelavam contra a Lei permitindo certa licenciosidade

Baseados nisto, podemos perceber uma tendência antinomiana. No meu entender o Rev. Augustus Nicodemus mesmo não usando a nomenclatura usada por Frangiotti, percebe algumas outras predisposições desta ala (helenistas radicais) do cristianismo primitivo, quando diz
Ao que tudo indica, portanto, formas iniciais de gnosticismo estavam agindo nas igrejas durante o período apostólico, especialmente nas igrejas helenísticas, onde pagãos haviam se convertido e trazido sua bagagem cultural e neoplatônica para dentro das primeiras comunidades cristãs.

A Questão das heresias se espalharem se deve ao fato da existência dos pregadores itinerantes que pregavam um evangelho falso. Com isto não se quer dizer que todo pregador itinerante fosse herege. O Rev. Augustus Nicodemus comentando sobre os falsos mestres que João enfrentou nos seus escritos diz
Aparentemente, eram pregadores ambulantes (prática comum naqueles dias, cf. os peripatéticos de Aristóteles que saíam pelo mundo afora procurando enganar as pessoas e tentando disseminar seus ensinos nas comunidades cristãs (2. 26; 4.1,5)

É fato que quando olhamos na 1 carta de João, esses falsos mestres negavam que Cristo tivesse vindo em carne (4.2; 2 Jo 7) diziam que o Senhor tinha “aparência” de humano, ou seja, a encarnação não tinha acontecido e a morte de Cristo fora uma farsa Este ensinamento é conhecido como docetismo (dokeo, parecer), além disto, eles também tinham uma prática contrária à Lei de Deus. Em versos como 1 João 3. 4-10 dá a entender que João está combatendo um ensino contrário a Lei de Deus. Sendo assim, os adversários de João eram antinomianos.
Com respeito a Judas o Rev. Paulo Siepierski identifica o ensino dos falsos mestres como
Um tipo de antinomianismo que pode ter tido sua origem em interpretações equivocadas do ensino paulino sobre a liberdade do cristão em relação à lei de Moisés. Esse antinomianismo era disseminado por mestres itinerantes que entravam nas comunidades cristãs ensinando a rejeição da autoridade moral e, conseqüentemente, estimulando o comportamento amoral

Por causa da aparência antinomiana das epistolas de 1 João e Judas, Bortolini diz
De fato, os adversários criticados nas cartas de João têm algo em comum com os que são condenados na carta de Judas. Se essa hipótese se sustenta, a carta poderia ter sido endereçada a comunidades cristãs da Ásia Menor (Éfeso e seus arredores), mas não necessariamente às comunidades joaninas.

COMO TIVERAM ACESSO ÀS COMUNIDADES CRISTÃS PRIMITIVAS?
Isto é uma questão interessante. Como esses falsos mestres tinham acesso às igrejas? Como ganhavam à confiança de irmãos que muitas vezes desconheciam? A resposta está na concepção de hospitalidade que a Igreja tinha e não somente a Igreja. Na antiguidade ela tinha um caráter quase sagrado. Hamman diz “O estrangeiro que passava a soleira da porta era considerado mensageiro dos deuses ou de Deus” .
As Escrituras louvam o fato da hospedagem, O próprio João louva Gaio pela hospitalidade e censura Diótrefes por sua atitude. Hermann comentando sobre a hospitalidade, diz o seguinte
O elogio da hospitalidade está no Evangelho; os outros escritos do Novo Testamento insistem no dever da acolhida e explicam sua motivação espiritual. Quem recebe o estrangeiro recebe o próprio Cristo. Esse é um dos critérios para ser acolhido na casa de Deus

Os falsos mestres usaram a bondade dos irmãos da Igreja para espalhar falsos ensinos, a penetração dos falsos mestres fora tamanha e causou tão forte impacto, que no séc. II o didaqué estabelece diretrizes, Herman diz que estas diretrizes “impunha prudência, tanto mais que os falsos irmãos e os fautores de heresia começavam a se multiplicar-se. A cizânia crescia tanto como a boa semente” O Didaqué estabeleceu os seguintes critérios:
1 Se alguém vier até vocês ensinando tudo o que foi dito antes, deve ser acolhido. 2 Mas se aquele que ensina for perverso e expuser outra doutrina para destruir, não lhe dêem atenção. Contudo, se ele ensina para estabelecer a justiça e o conhecimento do Senhor, vocês devem acolhê-lo como se fosse o Senhor. 3 Quanto aos apóstolos e profetas procedam conforme o princípio do Evangelho. 4 Todo apóstolo que vem até vocês seja recebido como o Senhor. 5 Ele não deverá ficar mais que um dia ou, se for necessário, mais outro. Se ficar por três dias, é um falso profeta.

QUAL FOI O IMPACTO DE SEUS ENSINOS?
O impacto do ensino herético nas comunidades joaninas e nas que Judas escreveu foi ferrenho. É necessário atentar que naquela época não existia seminários, as pessoas eram simples, muitos escravos, mulheres e crianças, a igreja sofria perseguição por parte do Império. Muitas comunidades não dispunham de líderes preparados. Sendo assim, o falso ensino certamente iria causar grande prejuízo e de fato causou. Carson; Moo e Morris em seu livro dizem o seguinte “Algumas pessoas já saíram (1 Jo 2.18-19), e João está escrevendo para advertir seus leitores sobre falsos mestres que estão ativamente tentando enganá-los” A situação está tão grave que João instrui os cristãos a tomarem algumas atitudes. O texto de 2 Jo 9-11 diz o seguinte “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho. 10 Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. 11 Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más”.
No que diz respeito a Judas, a situação também não era muito diferente, Judas fala que certos indivíduos se introduziram no meio dos santos e transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo. (Jd.4) Judas iria escrever sobre soteriologia, mas muda de foco quando soube da existência destes indivíduos. Judas diz que alguns estão na dúvida e ordena salvai-os, arrebatando-os do fogo. (Jd 22,23). A igreja corria perigo e era necessária uma interferência forte contra estes falsos mestres. E é isto que o Apostolo João faz. Da mesma sorte, o meio irmão do Senhor, Judas.

REAÇÃO APOSTÓLICA (JOÃO)
Segundo O Rev. Augustus Nicodemus, João empregou três critérios para dar munição aos cristãos para que pudessem avaliar o ensino e vida dos falsos mestres, são eles: O teste moral, social e doutrinário.
A minha proposta é fazer uma amostra exegética nas passagens selecionadas que corroboram cada critério. O fato de não analisamos textos de 2 e 3 João se deve ao fato de cremos que as informações contidas nos textos de 1 João são referenciais de prevenção dadas pelo apóstolo e que definem seu pensamento apologético em todas as suas epístolas.
a- Teste moral: 1 João 2.3-6
b- Teste social: 1 João 4. 7,8
c- Teste doutrinário: 1 João 2. 22,23
1 João 2. 3-6 Kai. evn tou,tw| ginw,skomen o[ti evgnw,kamen auvto,n eva.n ta.j evntola.j auvtou/ thrw/men 4 o` le,gwn o[ti :Egnwka auvto,n kai. ta.j evntola.j auvtou/ mh. thrw/n yeu,sthj evsti,n kai. evn tou,tw| h` avlh,qeia ouvk e;stin\ 5 o]j d a'n thrh/| auvtou/ to.n lo,gon avlhqw/j evn tou,tw| h` avga,ph tou/ qeou/ tetelei,wtai evn tou,tw| ginw,skomen o[ti evn auvtw/| evsmen 6 o` le,gwn evn auvtw/| me,nein ovfei,lei kaqw.j evkei/noj periepa,thsen kai. auvto.j peripatei/n

Análise do Teste Moral:
Como sabemos que temos conhecido o Pai? O texto nos responde: Se guardamos os seus mandamentos. Quero destacar aqui o verbo “guardar” thrw/men este verbo é um subjuntivo presente ativo. Qual é a idéia do verbo? A Chave Lingüística diz o seguinte: “A palavra tem a idéia de observar ou manter algo fixo na memória. O subjuntivo é usado em uma oração condicional de terceira classe, que encara a condição como uma possibilidade” Aqui reside a diferença no aspecto moral, quem conhece o Senhor guarda os seus mandamentos. Os hereges que João combatia eram antinomianos. No 1 século da nossa era havia duas formas de um gnosticismo embrionário, “um asceta e outro libertino”. Tanto João quanto Judas combateram o tipo libertino do pré-gnosticismo.
No verso 4 existe uma junção lógica entre “conhecer e praticar” Não há como desassociar um do outro. Aquele que diz que o conhece e não guarda os seus mandamentos é mentiroso. João usa o verbo Egnwka este verbo está declinado como sendo indicativo perfeito ativo. Pelo tempo do verbo podemos perceber que eles de fato asseguravam que tinham chegado ao conhecimento e permaneciam nele. Entretanto, João diz que eles não guardam os mandamentos. O verbo thrw/n está declinado como sendo particípio presente ativo. Ou seja, enquanto eles dizem que tem o conhecimento e nele permanecem não estão guardando os mandamentos. João sentencia: yeu,sthj evsti,n “mentiroso é”. O substantivo está declinado como sendo nominativo e o verbo é um indicativo presente ativo. João não deixa dúvida de quem se está falando, o mentiroso é o sujeito do verso e este estado de ser mentiroso é descrito como algo contínuo. Enquanto ele for contraditório, ele é e continuará sendo mentiroso. E, por mas que digam que possui a verdade, ela não está nele.
No verso 5 João introduz uma conjunção hiperordenativa ou superordenativa “d” que segundo a análise gramatical “introduz uma oração que é mais proeminente do que aquela que se relaciona. Portanto, esta última é subordinada à oração regida pela conjunção superordenativa” João diz que aquele “o]j” ( Pronome relativo nominativo ) que guarda thrh/| (subjuntivo presente ativo) a chave lingüística diz “ O subjuntivo é usado com o pron. rel. com o significado de quem quer que guardar” . Ou seja, o que guardar a sua palavra, verdadeiramente o amor de Deus foi tetelei,wtai “aperfeiçoado, consumado” este verbo está declinado como sendo indicativo perfeito passivo, ou seja, o amor de Deus está de forma completa e seus resultados permanecem nele. A chave lingüística diz “o verdadeiro amor a Deus é expresso pela obediência moral e não por linguagem emotiva ou experiências místicas” E nisto sabemos ou conhecemos (ginw,skomen) que estamos (evsmen) Nele. Ambos os verbos estão no indicativo presente ativo, indicando continuidade.
No verso 6 João faz uma afirmação: Aquele que diz que permanece (me,nein) infinitivo presente ativo, o verbo transmite a idéia de uma estadia contínua. Esse deve andar (peripatei/n) infinitivo presente ativo. A idéia é de um andar contínuo. E este andar tem que ser como ele andou (periepa,thsen) indicativo aoristo ativo. Ou seja, o cristão precisa refletir em sua vida o comportamento de Cristo.
1 João 4:7-8 VAgaphtoi, avgapw/men avllh,louj o[ti h` avga,ph evk tou/ qeou/ evstin kai. pa/j o` avgapw/n evk tou/ qeou/ gege,nnhtai kai. ginw,skei to.n qeo,n 8 o` mh. avgapw/n ouvk e;gnw to.n qeo,n o[ti o` qeo.j avga,ph evsti,n

Análise do Teste Social:
Qual seria o fator prático do conhecimento de Deus? João estabelece um critério social que demonstraria a praticidade do verdadeiro conhecimento. João começa o verso 7 dizendo: Amados, amemos (avgapw/men) subjuntivo presente ativo. O amor precisa ser constante uns com os outros, João diz que o amor procede de Deus. Segue-se que todo aquele que ama ( avgapw/n) é nascido ( gege,nnhtai) indicativo perfeito passivo, o tempo do verbo indica um ação já realizada que tem seus efeitos contínuos, este homem não está nascendo, ele já é nascido e a prova deste nascimento é o amor. O homem que tem amor no coração, além de ser já nova criação, de fato conhece a Deus. O verbo conhecer ( ginw,skei ) indicativo presente ativo, indica um conhecimento que é constante. No verso 8 João faz uma declaração, ele diz: Aquele que não ama (avgapw/n) particípio presente ativo, a idéia do verso é de uma vida que não demonstra amor em suas atitudes. Este individuo não conheceu (e;gnw) indicativo aoristo ativo. O aoristo no indicativo indica uma ação passada e completa, ou seja, este homem nunca conheceu a Deus, ele é mentiroso. João dá agora a razão deste homem ser mentiroso: Deus é amor. Se ele conhecesse a Deus refletiria o que Deus é no seu relacionamento.
1 João 2:22-23 Ti,j evstin o` yeu,sthj eiv mh. o` avrnou,menoj o[ti VIhsou/j ouvk e;stin o` Cristo,j ou-to,j evstin o` avnti,cristoj o` avrnou,menoj to.n pate,ra kai. to.n ui`o,n 23 pa/j o` avrnou,menoj to.n ui`o.n ouvde. to.n pate,ra e;cei o` o`mologw/n to.n ui`o.n kai. to.n pate,ra e;cei

Análise do Teste Doutrinário:
Depois de vermos os testes moral e social. Vamos considerar o teste doutrinário imposto sobre os falsos mestres.
João começa o verso 22 usando um pronome interrogativo Quem? ( Ti,j) é o mentiroso, interessante que João não quer identifica qualquer mentiroso, ele quer identificar “o mentiroso” João escreve de forma bem especifica, ele sabe quem quer atingir. No texto João usa o` yeu,sthj Artigo nominativo masculino singular + Substantivo nominativo masculino singular. Será que João tinha um individuo especifico em mente? Razão por declinar o artigo e o substantivo no nominativo e no singular? Na seqüência do verso ele dá sua característica: Nega que Jesus é o Cristo. João usa um verbo aqui avrnou,menoj “negar” particípio presente, esta atitude dos falsos mestres era constante. João dá o seguinte parecer sobre quem estava negando, ou-to,j evstin o` avnti,cristoj “ este é o anticristo” temos aqui um pronome demonstrativo nominativo+verbo indicativo presente ativo+artigo nominativo masculino singular+Substantivo nominativo masculino singular. João usa um pronome demonstrativo declinado no nominativo, ou seja, ele apontar o sujeito. Este individuo que João focaliza tem por prática negar que Jesus é o Cristo e por ter esta atitude João o classifica como O anticristo. Observe o uso do artigo antes do substantivo, ambos declinados no nominativo. João diz que este individuo nega o Pai e o Filho. A idéia de João é apontar alguém, mas no mesmo capitulo nos verso 18 nos é dito que vem anticristos (avnti,cristoi) têm surgido. A questão é: O anticristo seria uma pessoa? Um sistema? Sproul diz o seguinte:
Mesmo que o anticristo de João fosse uma determinada pessoa no primeiro século, isso não exclui a possibilidade de que outros anticristos tenham surgido em várias épocas, ou mesmo continuamente, através da história da igreja. Essa especulação ganha, no mínimo, algum crédito baseada na referência de João a muitos anticristos (1 João 2.18) que precederam o anticristo

No verso 23 João estabelece o critério doutrinário de forma bem especifica: pa/j o` avrnou,menoj to.n ui`o.n “ Todo o que nega o Filho” João usou o verbo avrnou,menoj “no particípio presente médio. Esta atitude dos falsos mestres eram constantes. João diz que quem age assim não e;cei “tem” indicativo presente ativo, ou sejam, não tendo o Pai. Contudo, o que o`mologw/n “que fala igual” e;cei “tem” indicativo presente ativo, ou seja, tendo o Filho e também o Pai. Assim, João estabelece o teste doutrinário que seria juntamente com os outros dois testes uma espécie de farol para guiar os santos de Deus durante a sua jornada cristã e que eles não se tornassem vitimas do ensino dos falsos mestres.

REAÇÃO DE JUDAS
Judas não era apóstolo, identifica-se como irmão de Tiago e servo do Senhor Jesus. A quem a carta se destinava? Quem eram seus leitores originais?
Bortolini diz o seguinte:
Diferentemente da maioria das cartas do Novo Testamento, que têm uma comunidade (ou pessoa) bem definida desde o inicio, a carta de Judas é aberta (por isso classificada também como católica, ou seja, universal) sem endereço determinado. Podia ser uma carta circular para várias comunidades. Não se sabem de onde foi escrita nem a quem se destinava. Pode-se arriscar uma hipótese, relacionando-a com as cartas de João. De fato, os adversários criticados nas cartas de João têm algo em comum com os que são condenados na carta de Judas. Se essa hipótese se sustenta, a carta poderia te sido endereçado à comunidade cristãos da Ásia Menor (Éfeso e seus arredores), mas não necessariamente às comunidades joaninas. Aliás, a insistência com que a carta se refere ao Antigo Testamento e a textos judaicos apócrifos faz supor que muita gente nessas comunidades fosse de origem judaica

Qual o propósito desta carta? Em que Judas está interessado quando escreveu ela? Existiu algum motivo especifico?
É isto que procuraremos responder!
Green diz “que Judas escreve sua epístola com pressa para lidar com um surto de falso ensino acerca do qual acabara de ouvir falar”
Os estudiosos são de opinião unânime (mesmo os que advogavam que Judas não escreveu), que a epistola existiu por motivo apologético. Existia um surto de heresia, de falsos mestres na igreja, para a qual a carta foi dirigida.
Mas, qual seria este falso ensino? Green diz o seguinte:
Há concordância geral entre os comentaristas de que a heresia em mira é, em ambos os casos, uma forma primitiva de gnosticismo. As vidas e os ensinos destes homens negavam o Senhorio de Jesus (2 Pe 2.1; Jd 4). Conspurcavam a Ágape (festa do amor cristão), eram pessoalmente imorais, e infectavam aos outros com seus modos lascivos, através de reduzir ao mínimo o lugar da lei na vida cristã, e de enfatizar a liberdade (2 Pe 2. 10-12,18; Jd 4, 12) Nos seus ensinos, que eram muito volúveis, eram plausíveis e astutos, gostando da retórica, visando o lucro e obsequiosos com aqueles da parte dos quais esperavam ganhar alguma vantagem ( 2 Pe 2.3, 12, 14, 15, 18; Jd 16)

Ainda haveria mais coisas a dizer deste falso ensino; zombavam da doutrina paulina da livre graça em desculpa para a lascívia, e eles descreviam-se como sendo pneumatikois, os espirituais, embora na realidade não possuíssem o Espírito de modo algum.
Judas estava interessado tanto na salvação, como demonstrava uma preocupação pastoral de defender o rebanho, apesar de não ser apóstolo, revelava cuidado em escrever uma carta, conclamando a luta pela fé que uma vez foi dada aos santos.
É interessante a forma de argumentação de Judas, ele não combate a heresia de forma sistematizada, como se fosse um tratado de teologia, ele é simples em sua forma de argumentar. Apresenta personagens conhecidos do Antigo Testamento que viveram de forma ímpia. Baseado nisto, ele fala a respeito do juízo de Deus o qual não deixará impune os ímpios.
A minha proposta em Judas é fazer uma analise em dois versos (3-4) creio que estes versos têm muito a dizer sobre a reação de Judas
Judas 1:3-4 VAgaphtoi, pa/san spoudh.n poiou,menoj gra,fein u`mi/n peri. th/j koinh/j h`mw/n swthri,aj avna,gkhn e;scon gra,yai u`mi/n parakalw/n evpagwni,zesqai th/| a[pax paradoqei,sh| toi/j a`gi,oij pi,stei 4 pareise,duhsan ga,r tinej a;nqrwpoi oi` pa,lai progegramme,noi eivj tou/to to. kri,ma avsebei/j th.n tou/ qeou/ h`mw/n ca,rita metatiqe,ntej eivj avse,lgeian kai. to.n mo,non despo,thn kai. ku,rion h`mw/n VIhsou/n Cristo.n avrnou,menoi

Análise de Judas 3-4
O nosso texto começa com a saudação de Judas “ Amados”. Quem era esses amados? O primeiro verso responde: ... Aos chamados, amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo, as expressões gregas são hvgaphme,noij kai. VIhsou/ Cristw/| tethrhme,noij klhtoij o verbo agapaw está no particípio perfeito hvgaphme,noij e indica a segurança destes amados, o perfeito sugere que eles tinham sido e continuavam sendo objetos do amor de Deus, sendo assim, quando o irmão do Senhor chama os eleitos de amados, é muito mais que um mero tratamento, é uma condição gloriosa que os filhos de Deus têm. Existe também outro verbo no verso primeiro que é mister relacionar é tethrhme,noij este verbo também está no particípio perfeito, e é usado em sentido amistoso e quer dizer manter livre de perigos, preservar. A palavra expressa cuidado vigilante dispensado a alguém. Quem é esse alguém? Os Amados.
Pois bem, o verso 3, fala que Judas estava fazendo algo, o texto diz: Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me sentir obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes diligentemente, pela fé que uma vez por toda foi entregue aos santos.
Michael Green em seu comentário diz:
Judas nunca teve o propósito de escrever esta carta! Propondo-se a escrever (o presente do infinitivo grafein sugere “num estilo lento?” acerca da nossa comum salvação foi forçado a pegar sua pena ás pressas (o aoristo infinitivo grayai) por causa da noticia de uma heresia perigosa. Ao invés de escrever uma carta pastoral, viu-se escrevendo uma carta de advertência. A fraseologia aqui não sugere que não era uma tarefa muita grata, mas se sentia obrigado

Ainda falando da mudança de assunto a Chave Lingüística diz o seguinte:
O aoristo contrastado com o presente precedente implica que a nova epístola tinha de ser escrita imediatamente e ele não poderia estar preparado para uma coisa agradável, como a carta que ele tinha planejado antes

A situação que leva o irmão do Senhor a escrever a carta é séria, vemos isto pelos usos das palavras no texto grego: avna,gkhn expressa necessidade, compulsão, pressão.
Outra palavra é parakalw/n part. Presente ativo de parakalew que significa exortar, rogar, encorajar. É a palavra usada para discursos de líderes e de soldados que se encorajam mutuamente.
A Chave Lingüística faz o seguinte comentário “É a palavra usada para as palavras que enviam soldados e marinheiros medrosos corajosamente para a batalha”. Será que ao usar esta palavra, Judas está comparado estes irmãos aos soldados e marinheiros medrosos?
Provavelmente não!
Mas, para que Judas conclamam os irmãos?
O verbo grego evpagwni,zesqai que quer dizer: lutar por, contender, exercer grande esforço por alguém. A respeito deles a Chave Lingüística diz “a palavra era usada para as disputas atléticas e para o esforço dos atletas nos jogos”
Os cristãos para quem Judas escreve, têm uma fé em comum. Judas fala sobre isto no começo do verso 3. Justamente por causa desta fé comum que todos têm. É que Judas exorta que ela deve ser defendida. A comunidade estava agora enfrentando um grande problema, e este problema era a invasão de homens maus. Siepierski em seu comentário diz o seguinte:
Entre essas dificuldades encontramos os falsos ensinos. E foi com esse problema que Judas se defrontou. Ao perceber que falsos mestres estavam corrompendo o ensino apostólico, ele insistiu para que eles batalhassem pela fé uma vez por todas confiada aos santos. O verbo principal era utilizado nos jogos atléticos helênicos e indica que Judas não está insistindo para que seus destinatários defendam o evangelho. Ao contrário, eles devem avançar até a vitória final

A idéia de batalhar está bem clara. Percebe isto pela figura que a palavra evoca, a idéia é de luta, não no sentido tanto de defesa, mas também de ataque, e esta atitude precisa ser diligente, esta é a fé que Judas incita a igreja a batalhar por ela. Esta fé foi dada à igreja não por um tempo determinado, ela era o que a igreja tinha de mais precioso, o Léxico define a[pax da seguinte forma “no texto de Hb. 10.2; 1 Pe 3.18; Jd 3, 5, o advérbio têm o significado de uma vez por todas, de uma vez para sempre”
Por que será que o irmão do Senhor diz que a fé foi dada de uma vez por todas. O apostolo Paulo diz na sua carta para Tito cap. 1. Verso 1 o seguinte: Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade. Não existe coincidência. O que existe é um deposito de verdades. A fé é dom de Deus e pertence aos eleitos, não de forma passageira, mas permanente, e é isto que o texto nos diz. Se tivéssemos falando de Teologia Sistemática, diríamos que o texto dá base para certeza de salvação, garantia de que o crente não pode cair da graça, mas fazendo a exegese do texto, percebemos que é justamente isso que o texto diz, ou seja, a nossa teologia está correta. Esta fé foi dada para sempre aos santos, e os santos precisam ter atitudes na defesa e propagação dela. E esta fé é o corpo de verdades, confiada à igreja.
Quais foram os motivos que levaram Judas a escreve esta carta?
O verso 4 diz: Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.
Este verso é muito rico em detalhes e revela-nos doutrinas a respeito do homem e do plano que Deus tem na vida de cada um. Pois bem, vamos a análise.
Quem eram estes homens?
Siepierski vai dizer que eles eram bem conhecidos dos leitores de Judas.
Eram pregadores itinerantes que, como era costume no cristianismo primitivo, viajavam de comunidade em comunidades nas quais eram sempre bem recebidos como profetas do Senhor. Só que após serem recebidos esses pregadores itinerantes em questão começavam a ensinar contrariamente ao ensino dos apóstolos. Judas diz que eles infiltraram-se dissimuladamente, pois provavelmente esperavam um certo tempo para começar seu ensino. Somente após terem adquirido a confiança da comunidade é que iniciavam a propagação dos falsos mestres. Isso demonstra que tais pregadores possuíam uma estratégia para arrebanhar seguidores

Bortolini têm o mesmo parecer a respeito destes homens
O texto nos informa que estes homens foram antecipadamente pronunciados para esta condenação. O verbo progegramme,noi particípio perfeito passivo, faz necessário observarmos algumas questões a respeito do uso do tempo perfeito para este verbo. Como sabemos, o perfeito é realmente perfeito presente, pois representa a ação do verbo no presente como existindo num estado completo ou aperfeiçoado. Quando foi que se completou a ação, o tempo perfeito não afirma. O perfeito expressa a continuidade da ação completada. “É uma combinação da ação pontiliar e durativa”
Observe que o verbo está na voz passiva, ou seja, ele sofre a ação, quem pratica a ação neles? Logicamente o Senhor Soberano.
A Chave Lingüística comentando isto diz:
Escrever previamente, inscrever de antemão, isto é “escrito antes no livro divino de julgamento” a palavra objetiva mostrar que eles já estão destinados á punição por serem inimigos de Deus. O perfeito indica a autoridade contínua daquilo que foi escrito

Mesmo não concordando, Bortolini, que é católico diz:
Como dissemos, Judas não aceita o diálogo, e nós não sabemos exatamente por que chegou a essa decisão. De acordo com a tradição daquele tempo e segundo textos apócrifos conhecidos por aquelas comunidades, afirmava-se que num livro que Deus tinha no céu estava registrado antecipadamente o destino de cada um. Esse modo de pensar e de ver as coisas pode conduzir a uma visão muito distorcida de Deus. Parece que o autor foi “espiar” o que havia nesse livro

Fica manifesto o tom jocoso de Bortolini, em não aceitar o posicionamento bíblico.
Independentemente se os homens aceitam ou não, o fato é claro: eles foram inscritos de antemão. Foram para que? Para kri,ma ou seja sentença, julgamento. O texto começa a descrever suas atitudes, avsebei/j ímpios, irreligiosos, qual a razão de serem ímpios? Só uma: A falta da graça de Deus. Mas, como poderiam desfrutar da graça? Se já eram condenados e destinados para este fim? Estes homens têm atitudes desprezíveis e malignas, próprias dos reprovados, os quais transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.

APLICAÇÕES PARA OS NOSSOS DIAS
1- A Igreja precisa conhecer as instruções dadas pelas Escrituras sobre qual ensino “de fato” procede de Deus.
2- A Igreja precisa de maturidade que provém de um conhecimento sadio.
3- Os ministros precisam entender que o êxito ministerial se evidência quando os santos são capacitados para o serviço a Deus.
4- A Igreja é chamada para batalhar pela fé e ter misericórdia de muitos que sucumbiram diante do falso ensino Jd. 23-23

CONCLUSÃO:
As instruções dadas por João e Judas servem para nortear a Igreja em dias difíceis. O pragmatismo e o pluralismo religioso devem ser combatidos. A Igreja do Senhor precisa ter sempre em mente a ordem de Judas “Vós, porém, amados edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo, guardai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna” 20-21

BIBLIOGRAFIA
APOSTILA de grego, Seminário Presbiteriano Conservador
BOTOLINI, José. Como ler a Carta de Judas. São Paulo-SP: PAULUS, 2001.
CARSON, D.A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo-SP: VIDA NOVA; 2004
FRANGIOTTI, Roque. Histórias das Heresias (Séculos I-VII). 3ªed. São Paulo-SP: PAULUS, 2002
FRIBERG, Barbara; FRIBERG, Timothy. O Novo Testamento Grego Analítico. São Paulo-SP: VIDA NOVA, 2006.
GINGRICH Wilbur F. e DANKER W. Frederick. Léxico do Novo Testamento Grego/Português. São Paulo- SP: Vida Nova, 2004
GREEN, Michael. II Pedro e Judas Introdução e Comentário. São Paulo-SP; VIDA NOVA, 2006
HAMMAN, A.-G. A Vida Cotidiana dos Primeiros Cristãos (95-197). São Paulo-SP: PAULUS, 1997
LOPES, Augustus Nicodemus. Interpretando o Novo Testamento Primeira Carta de João. São Paulo-SP: Cultura Cristã, 2005
RIENECKER, Fritz; ROGERS Cleon. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego. São Paulo-SP: VIDA NOVA, 1995
SIEPIERSKI, Paulo. Em Diálogo com a Bíblia 2 Pedro e Judas. Curitiba-PR: Encontrão Editora, 1997.
SPROUL, R.C. Os Últimos Dias Segundo Jesus. São Paulo-SP: Cultura Cristã, 2002
SITE CONSULTADO
www.monergismo.com/textos/credos/didaque.htm

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Aliança Abraâmica

Enquanto que na aliança da noetica, ou aliança da preservação, Deus manifestou-se de forma graciosa com o ser humano e com suas criaturas de forma geral, preservando Noé e sua família e os animais.
Na aliança com Abraão, Deus dá uma ordem a um homem que Ele tinha escolhido para fazer uma aliança e desta aliança estabelecer um povo. Este povo não seria somente os seus descendentes, mais todos aqueles que professassem fé no Deus de Abraão.
Abraão morava em Ur na Caldeia, seu pai se chamava Terá e era idolatra Josué 24.2
Em Abraão, Deus começa um novo estágio do pacto da redenção, a Igreja Visível surge com Abraão. È com Abraão que Deus vai fazer um sinal visível de seu relacionamento: A Circuncisão. É com os descendentes de Abraão que Deus estabelecerá a Páscoa, é com os descendentes de Abraão que Deus ira dá a Lei, é dos descendentes de Abraão que Jesus nasceu. Deus justificou e chamou Abraão quando ele não era circuncidado, ate porque a circuncisão é selo da fé, da aliança que Deus fez com Abraão. Por que cremos no Deus de Abraão somos chamados filhos de Abraão, no sentido de sermos identificados com Ele. Veja o texto de Gálatas 3. 6-14
O grande erro dos judeus foi pensar que pelo fato de ter uma descendência na carne com Abraão isto garantia acesso a Deus, não Deus chama Abraão e faz com ele um pacto, e todo aquele que professar fé em Deus, independente de nação, este que é verdadeiro filho de Abraão, este é o sentido que Paulo diz: Ora, tendo a Escritura previsto que o Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho Abraão; Em ti, serão abençoados todos os povos. Gálatas 3.8
A aliança da Redenção foi administrada de Adão até Abraão por meio de:
1- Promessa
2- Por meio de sacrifícios típicos instituídos na família de Adão (lembre-se que o templo não existia e nem sacerdotes, o sacrifico era oferecido em certos lugares e quem oferecida era o patriarca da família)
3- Por meio de revelações imediatas e manifestações pessoais de Javé ou do Mediador divino. Assim o Senhor é representado nos onze primeiros capítulos de Gênesis côo “falando” aos homens
4- Essas promessas e sacrifícios eram entendidos em sua verdadeira significação espirituais, fica provado pelo fato que lê em Hb. 11. 4-16
È importante entendermos isto, o patriarca é quem oferecia os sacrifícios, ele é quem era responsável pelo culto a Deus.
Berkhof diz:
No período patriarcal as famílias dos crentes constituíam as congregações religiosas; a Igreja era mais bem representada nos lares piedosos, onde os pais serviam de sacerdotes. Não havia culto regular, embora Gn 4.26 pareça implicar uma invocação pública do nome do senhor. Havia distinção ente os filos de Deus e os filhos dos homens (...). Por ocasião do Dilúvio, a igreja foi salva na família de Noé, e continuou particularmente na linhagem de Sem. E quando a religião verdadeira estava de novo a ponto de morrer. Deus fez uma aliança com Abraão, deu-lhes como sinal a circuncisão e o separou e aos seus descendentes do mundo, para ser povo peculiar seu

É a partir de Abraão que Deus começará a se relacionar com um povo, ou seja, seus descendentes, estes descendentes constituíram a igreja visível d Deus no Velho Testamento, quando os gentios nesta época queriam adorar a Deus, se tornava prosélitos, eram circuncidados e guardavam a Lei de Deus. Deus como prova de sua aliança fez um pacto com Abraão. E é isto que iremos ver na próxima aula. Ler Gênesis 15

Aliança Abraâmica parte II

Deus chama Abrão de sua terra em Gênesis 12. Sara sua mulher era estéril e pelos costumes da época seu servo Eliezer poderia ser “adotado” ficando com todos os seus bens, Mas Deus tinha outros planos para Abraão. Ele disse que Sara teria um filho. Imaginem a alegria que o patriarca deve ter ficado... Talvez tivesse pensado no fato de ser velho, mas mesmo assim o Texto Sagrado nos diz que: Ele creu em Deus e isto lhe foi imputado para justiça Gn. 15.6.
Deus para confirmar a promessa de que Abraão teria um filho, fez um pacto com ele, e é aqui que vamos nos deter um pouco.
1- Qual é o significado deste pacto?
O pacto foi feito entre Deus e Abraão e tem um significado muito profundo, Abraão pega os animais (novilha, cabra, cordeiro, rola e um pombo) e parti-os ao meio com exceção das aves Gn 15.10. Qual a razão disto?
A razão era a seguinte: Estava sendo estabelecido um pacto, este pacto não era diferente quanto à essência do anterior feito com Adão e Noé, o pacto era ministração de graça. Lembremos que até o momento não existia uma povo especifico separado para Deus, do patriarca Abraão, Deus ira levantar este povo, e para mostrar a imutabilidade de seu propósito Deus entra em aliança com Abraão.
2- O que aconteceu neste pacto?
O verso 12 do cap. 15 descreve que caiu profundo sono em Abraão e grande pavor e cerradas trevas o acometeram. O Senhor lhe fala: Que sua descendência seria peregrina em terra alheia e reduzida a escravidão e será afligida por 400 anos. Interessante observarmos a exatidão da narrativa, antes de Israel se tornar escravo, ele foi peregrino em terra alheia, só é olharmos a historia de Isaque, Jacó. Aqui nós temos o decreto da escravidão de Israel, na história de José temos todo o desenrolar da providência para que os filhos de Jacó fossem ao Egito e ficassem lá, para que o decreto que Deus tinha anunciado a Abraão se cumprisse. Deus disse também que iria julgar aquelas gente, como de fato fez, na história da travessia do mar vermelho. Fala também da ira que tinha contra os amorreus Verso 16 do cap. 15.
Existe algo curioso, Por que Deus falou isto a respeito dos amorreus? No cap. 14.13 diz: Porém veio um, que escapara, e o contou a Abrão, o hebreu; este habitava junto dos carvalhais de Manre. O amorreu, irmão de Escol e de Aner, os quais eram aliados de Abrão. No decorrer da história de Israel os amorreus tornam-se inimigos ferrenhos de Israel. Mas naquele período dá a entender que eram aliados
3- E para prova isto algo extraordinário aconteceu.
O verso 17 descreve que: Posto o sol, houve densas trevas; E eis um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo que passou entre aqueles pedaços (verso 17)
Robertson diz o seguinte:
Na conclusão dessas palavras de profecia, Abraão testemunhou um mui surpreendente fenômeno. Um fogaréu fumegante e uma tocha de fogo passaram entre aqueles pedaços de carne que haviam sido arranjados antes

Por que Deus fez isto?
Esta atitude tinha um significado espantoso, a ideia é que a parte que quebrar será morte e cortada ao meio da mesma forma como aqueles animais foram, mediante a divisão dos animais estabeleciam uma espécie de automaldição. Deus estava mostrando a Abraão o quanto levava sério a aliança.
Deus cumpriu a aliança estabelecida com Abraão, tudo que tinha dito se cumpriu, A descendência de Abraão foi peregrina, escrava e depois saiu com grande riqueza, o povo que tinha opresso o povo de Israel foi julgado e o Senhor deu a terra prometida aos descendentes de Abraão.
Robertson diz:
Deus, o Criador, liga-se ao homem, a criatura, mediante solene juramente de sangue. O Todo-Poderoso decide comprometer-se a cumprir as promessas ditas a Abraão. Em virtude deste comprometimento divino, as dúvidas de Abraão são eliminadas. Deus prometeu solenemente e selou esta promessa com um juramento de automaldição. Está assegurado o cumprimento da palavra divina

Iremos ver durante os estudos que toda vez que Deus estabelece um novo estagio da aliança da redenção, Ele cumpre, sempre é o homem que falha, e nesse entendimento que iremos perceber a maldição da aliança quando chegarmos na aliança da Lei, e onde perceberemos que a Lei é na verdade Graça.

Aliança Abraamica Parte III

Vimos que quando Deus fez a aliança com Abraão, passou no meio dos animais repartidos e isto significativa que caso não cumprisse sua parte, Ele queria ser esquartejado como aqueles animais.
Robertson diz o seguinte: “Em iniciando alianças, Deus jamais entra em relação casual ou informal com o homem. Em lugar disto, as implicações de seus pactos estendem-se às ultimas conseqüências de vida e morte”
A frase que é traduzida por fazer aliança, no original significa “cortar uma aliança” que é justamente fazendo menção ao caráter da aliança, caso não cumpra, as partes contratantes precisam ser cortadas como os animais. Essa idéia de cortar a aliança, esta ideia aparece em outras alianças que vão aparecer no Antigo Testamento Jz 2.2; I Sm 11. 1-2, Is 28.15, Jr. 11.10, Ez 17.13; Os 2.18
Qual é a significação desta divisão de animais no momento de estabelecimento de aliança? Tanto a evidência bíblica quanto a extra bíblica combinam no sentido de: confirmar significação especifica para este ritual. A divisão do animal simboliza um “penhor de morte”, no momento do compromisso da aliança. Os animais desmembrados representam a maldição que o autor do pacto invoca sobre si mesmo caso viole o compromisso que fez
A aliança tem uma característica que é o derramamento de Sangue.
Qual o significado do sangue?
O sangue tem significação nas Escrituras porque representa a vida, não porque seja bruto e sangrento. A vida está no sangue (Lv 17.11) e por isso o derramamento de sangue representa um julgamento sobre a vida. A imagem bíblica do sacrifício de sangue dá ênfase à inter-relação de vida e sangue. O derramar de “vida sangue” significa o único caminho de livramento das obrigações de aliança uma vez contraídas. Uma aliança é um pacto de sangue, que compromete os participantes à lealdade sob pena de morte. Uma vez firmada a relação de aliança, nada menos do que o derramamento de sangue pode libertar das obrigações contraídas no evento de violação da aliança.
Aqui temos um motivo, porque Jesus teve que morrer. Nós como descendentes de Adão, pecamos. Antes de haver o pecado, observe que a aliança não tinha derramamento de sangue, Deus estabelece uma aliança com Adão e não há derramamento de sangue. Deus tinha estabelecido um relacionamento único entre ele e a criação. Quando Adão pecou, a maldição anunciada tinha que ser cumprida. Sendo assim, pelo contrato de aliança, o homem tem que morrer. É neste entendimento que compreendemos a palavra “GRAÇA” Favor imerecido. Por quê? Pela estrutura da aliança, o homem tinha quebrado. Sendo assim, ele tem que ser aniquilado. Mas Deus revelou graça.
Deus estabelece uma aliança com Adão Oseías 6.7
Partes contratantes: Deus e Adão
Conteúdo da aliança: Benção (vida) e Maldição (morte)
Condição: Obediência e desobediência. Se obedecesse viveria, caso não morreria
Houve desobediência: ENTÃO HOUVE MORTE.
Vimos à presença de Sangue na aliança com Noé, (ver Gn 8. 20-22) Qual foi a reação de Deus?

Aliança Abrâamica Parte IV

Quando Deus fez a aliança com Abraão, existe uma característica importante no chamado de Abraão, Van Groningen faz o seguinte comentário
O chamado de Abrãao deve ser visto como mais do que uma mera diretriz para se mover para outro lugar. Deus Yahweh chamou Abrão porque o havia escolhido para um serviço especifico pactual (Gn 18.19). Gerhardus Vos observou corretamente que, enquanto que o tratamento anterior havia sido com toda a raça humana,a gora um homem e sua esposa forma escolhidos para servirem em um propósito universal

Isto é importante observamos, pois na estrutura pactual é com Abraão que começa a existir a Igreja Visível, é com Abraão que Deus estabelece o primeiro sacramento: Circuncisão em Genesis 15 deus fez um promessa a Abraão sobre a terra Ler Gênesis 15. 18-20.
A soberania de Deus é revelada sobre a terra, Ele dará a Abraão terras, esta prerrogativa Deus tem, pois é Dono de tudo o que há Salmo 24.1
Os descendentes de Abraão possuíram esta terra? Nesta extensão mencionada? Van Groningen diz que sim.
Esta promessa a respeito da terra foi cumprida completamente no tempo de Davi e Salomão (2Sm 8; 1Rs 2.46; Sl 72) A grande expansão da terra, de acordo com Paulo, simbolizava Deus entregando todo o mundo como herança a Abraão e sua semente (Rm4.13). Foi cumprida quando a fé foi exercida, foi perdida quando Salomão, sua semente, e Israel e desobedeceram a Deus quebrando o pacto

Vemos o caráter condicional da aliança, uma coisa que devemos aprender que na aliança mesmo nos nossos dias o que não é condicional é a nossa salvação. Pois a questão da salvação foi um assunto tratado diretamente entre a Santíssima Trindade e Cristo. Mas as benções decorrentes da nossa obediência a Lei de Deus hoje em dia continua tão condicional como antes, um exemplo a nossa confissão diz no Cap XVIII Seção IV tratando sobre a certeza da Graça e da Salvação
Os verdadeiros crentes podem ter, de diversas formas,a a segurança de sua salvação abalada, diminuída e interrompida pela negligência da preservação dela; pela queda em algum pecado especifico, o qual fere a consciência e entristece o Espírito; por alguma tentação súbita e veemente; por desviar Deus a luz de seu rosto, permitindo até mesmo os que o temem a andarem em trevas e a não terem nenhuma luz. Contudo jamais serão totalmente destituídos daquela semente de Deus e da vida de fé, daquele amor a cristo e aos irmãos, daquela sinceridade de coração e consciência do dever, donde, pela operação do Espírito, esta segurança, no devido tempo, poderá ser revitalizada. E por meio dessas bênçãos, nesse interregno, são sustentados para que não Caim em total desespero

Do que a Confissão de Fé está falando? De bênçãos que os crentes quando não vigiam, quebrando a Lei de Deus e conseqüentemente a aliança, perdem. Deus por punição pode tirar perfeitamente, da mesma forma como deu as terras prometidas a Abraão e depois a tirou da mesma forma como ameaçou com o desterro a igreja do Velho Testamento e cumpriu
Precisamos aprender que a aliança tem bênçãos condicionais. A que foi incondicional pra mim, é a minha salvação (eleição, predestinação, regeneração, justificação, santificação e glorificação) Observamos esta verdade lendo o texto de Romanos 8 29-30. Onde todos os verbos aparecem no passado, até mesmo o que nos falta acontecer “a glorificação”A idéia é: É tão certo e tão seguro pois só depende de Deus, que Ele já considera ato consumando. O verbo no grego está no aoristo, e a idéia do aoristo é de algo que já aconteceu uma vez só no passado.
Mas no que diz respeito as benção do dia a dia, estão condicionadas a obediência a aliança. Deus cumpriu sua parte na aliança que fez com Abraão.
1- A descendência dele foi peregrina
2- Foi escravizada
3- Foi afligida
4- Deus julgou os opressores de seu povo
5- Sairão do Egito com riquezas
6- E no reinado de Salomão o território se entendeu até toda área que Deus tinha dito
Mas os filhos de Deus não cumpriram sua parte, sendo assim, experimentaram: seca, guerras, pestes, fome, desterro.

Aliança Abraâmica parte V

Com Abraão, Deus faz aliança e dá o primeiro sacramento, “a circuncisão”. Antes de Abraão, Deus se relacionou com famílias, vemos, por exemplo, o caso de Set e família, Enoque e Noé e família. Eles não receberam um sinal visível deste relacionamento. Foi com Abraão que Deus estabeleceu um estagio da aliança da redenção que teve como “uma” característica bem diferenciada das anteriores é neste estagio que Ele dá um sinal, que todos aqueles que faziam parte da Igreja visível no Antigo Testamento deveriam ter: A circuncisão. Antes, precisamos definir o que é Igreja Visível, a Confissão de Fé de Westminster diz:
A Igreja visível, a qual é também católica ou universal sob o evangelho (não confinada a uma anca, como outrora sob a lei), consiste de todos aqueles que, espalhados pelo mundo inteiro, professam a genuína religião, juntamente com os seus filhos; e é o reino do Senhor Jesus Cristo, a casa e família de Deus, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação

Posteriormente iremos falar sobre A Igreja Invisível. A Igreja visível do Senhor é o que chamamos de Igreja Militante, Suplicante. E esta igreja em Abraão recebe o selo de iniciação, a circuncisão. É importante que os irmãos estejam já com a ideia da aliança bem definida na cabeça, o grande problema de quem não aceita o batismo infantil, por exemplo, é a não compreensão deste aspecto de continuidade da aliança.
Veja o Que A.A. Hodge fala
A aliança feita com Abraão como o representante da Igreja Visível e universal tinha estas características: (a) Foi feita com ele como o “pai de muitas nações” e Paulo afirma que Deus o constitui “herdeiro do mundo” e “pai de todos os que crêem”, Romanos 4. 11,13, e que todos os que crêem em Cristo agora, quer judeus quer gentios, são “descendência de Abraão e herdeiros conforme as promessas” Gálatas 3.29. (b) Continha provisão para que fossem incluídas em seus privilégios outras pessoas não nascidas como posteridade natural de Abraão Genesis 17.12. Multidões de tais prosélitos haviam sido introduzidas dessa forma (na esfera da aliança) antes do advento de Cristo, e muitos deles achavam-se presentes em Jerusalém como membros da Igreja em sua forma antiga (...)

O que Hodge enfatiza? É o caráter de continuidade da aliança, Abraão seria pai de muitas nações. Em que sentido? Natural? Ou Espiritual? A quem o texto se refere? A nota de rodapé da Bíblia de Genebra trás uma boa explicação
Abraão foi o pai físico de muitas nações: O Israel étnico através do filho prometido; os ismaelitas (v. 20; 21.13; 25.12-18); os edomitas (25.23; 36. 1-43); e seus descendentes através de Quetura (25. 1-4) Porém, esta promessa encontra seu cumprimento final na multidão de cada tribo,,língua e nação que compartilha com Abraão a mesma fé são batizados em Jesus Cristo (Rm 4. 16-17; 15. 8-12; Gl 3.29; Ap 7.9)

Pessoas não nascidas em Israel poderiam subir a Jerusalém, e ir adorar a Deus. São os chamados prosélitos.
A circuncisão como o batismo são sacramentos de iniciação na Igreja. A circuncisão na Igreja do Antigo Testamento e o Batismo na do Novo Testamento. Todo sacramento possui duas partes, o nosso Catecismo na pergunta 163 diz:
Quais são as partes de um sacramento? R- As partes de um sacramento são duas: Uma é um sinal externo e sensível, usado segundo a própria determinação de Cristo; a outra é uma graça interior e espiritual significada pelo sinal

Geerhardus Vos, fazendo um comentário sobre esta questão da relação das duas partes diz
(...) Aqueles que usam os sacramentos de maneira errada, sem fé verdadeira em Jesus cristo, não participam realmente dos sacramentos; participam apenas das suas formas ou rituais externos, não das suas realidades espirituais

O que Vos quer dizer com isso?
Que existe a possibilidade de alguém receber o aspecto externo sem receber o aspecto interno, um caso clássico registrado nas Escrituras é At 8. 9-13 e 14-24.
Observe, ele é batizado, mas veja a sua atitude diante de Pedro e João.
Este principio, pode ser aplicado no caso de certas pessoas que são batizadas na infância, crescem e vivem de forma impiedosa, até este momento elas não receberam o sinal interno do sacramento de iniciação. Com isto, não se quer dizer que elas não eleitas, veja o caso de Dimas, o ladrão da cruz, o certo é que por ser circuncidada no caso do Antigo Testamento ou batizado no caso do Novo Testamento, O Senhor tem relação com elas, pois elas receberam o selo da aliança.
Continua na próxima semana

Aliança Abraâmica (Parte VI)

O que significa a Circuncisão no contexto da aliança que Deus fez com Abrãao?
È importante entendermos isto.
A Palavra de Deus está estruturada em cima daquilo que chamamos de “Continuidade”
Não existem períodos que não estejam ligados nas Escrituras, a história do povo de Deus na Bíblia é a História da revelação progressiva da graça de Deus, sendo assim, o que a Circuncisão significou na aliança abraâmica ela significou nos estágios posteriores, inclusive quando há a mudança da circuncisão para batismo no último estágio da aliança. O batismo irá substituir a circuncisão, como a Eucaristia (Santa ceia) a Páscoa. Existe a questão do significado da circuncisão, é fato que a circuncisão não surge dentro do contexto semítico, ela já era praticada pelos outros povos, só que com Abraão ela teve um caráter totalmente diferente do que se tinham entre os pagãos
Robertson diz:
Contrariando a prática geral das nações como um todo, a circuncisão não seria para Israel um sinal de introdução na maioridade com achegada da puberdade. Em vez disso, envolve a criança de oito dias e, portanto, enfatiza o principio de solidariedade ente pais e filhos num relacionamento de aliança

Isto é importante, pois nas culturas antigas, a circuncisão tinha haver com o aspecto reprodutor do adolescente, nas Escrituras tem haver com o aspecto de identificação do povo de Deus, eis o motivo que Deus disse: Esta é a minha aliança, que guardareis ente mim e vós e a tua descendência: todo macho ente vós será circuncidado. (Gn 17.10).
Em Abraão começa a se estruturar aquilo que conhecemos por “Igreja Visível” é interessante observarmos isto, pois todos os membros da igreja, na aliança abraâmica precisavam ser identificados, ver o verso 13 do cap. 17
Qual a necessidade da identificação?
É interessante esta questão, pois além de ser uma ordem direta de Deus, “a questão da identificação”. Esta identificação deveria existir como sinal da aliança, da mesma sorte que um crente hoje precisa do batismo, não para garantir salvação, mas como sinal externo que aquela pessoa está na aliança.
A questão é tão séria que Deus tem um parecer para aqueles que estão na aliança e não tem o sinal da mesma, ver o verso 14 do cap. 17
Sobre isto é notório a questão da não circuncisão do filho de Moisés e a ameaça do Senhor, pois seu filho não era circuncidado, por causa de Zipora, ver Êxodo 4. 24-26
Veja a incoerência, Moisés o grande libertador de Israel, que estava Representando o Deus da aliança possuía um filho que não tinha o sinal da aliança, isto nos traz uma lição: Quantos não batizam seus filhos por não conhecerem a aliança? Será que Deus mudou sua estrutura quanto ao seu povo? A leitura natural do texto de Atos 2.39, não é a inclusão das crianças, já que o Senhor Jesus e a descida do Espírito Santo são cumprimentos de profecias do Antigo Testamento?

Aliança Abraâmica (Parte VII)

Existe um significado teológico na circuncisão?
Porque a circuncisão era a retirada do prepúcio (pele que envolve o pênis)?
Qual o significado por trás disto?
Robertson respondendo diz o seguinte:
A circuncisão indicava necessidade de purificação. O ato higiênico da remoção do prepúcio simbolizava a purificação necessária para o estabelecimento de uma relação de aliança entre Deus santo e um povo profano. A aplicação da circuncisão ao primeiro pai da linha familiar da promessa indicava que apenas a descendência física “não era suficiente para fazer verdadeiros israelitas”. A impureza e a inabilitação da natureza deviam ser eliminadas.

É interessante entendermos isto, nas nações vizinhas que praticavam a circuncisão, o ato de circuncidar apontava para o período de iniciação sexual do macho adolescente, em Abraão e nos seus descendentes, o sinal era para mostrar a impureza de um povo que Deus estava em aliança. Robertson comenta o seguinte sobre isto:
A circuncisão devia ter humilhado o povo de Israel porque mostrava o seu demérito inato para ser o povo de Deus. Em vez disto, o sinal foi mal compreendido, como se significasse que ele era um povo especialmente dotado de mérito perante Deus. O que devia ser para ele fonte de humilhação tornou-se fonte de orgulho.

Quer dizer que todo circuncidado estava puro diante de Deus?
Não! Ele tinha na pele o sinal que apontava para sua impureza, é interessante aqui entendermos o aspecto duplo do sacramento, “interno e externo” no seu aspecto externo dizia: Olha você é impuro diante de mim, e como sinal desta tua impureza remova a prepúcio do pênis, mas não é o suficiente, existia a circuncisão no coração que só Deus pode efetuar. (Dt. 30.6)
Sobre isto Robertson comenta o seguinte:
Como originalmente instituída, a circuncisão não sugere meramente necessidade de purificação. Simboliza também o processo real de purificação que é necessário. Não apenas indica que o homem é impuro por natureza, representa também a remoção da mácula essencial para se alcançar a pureza

Observe a lógica da razão, qual o motivo que o povo tinha de ser circuncidado?
Porque era povo de Yahweh.
E sendo seu povo carregava na pele este sinal que o humilhava e lembrava a graça de Deus, pois Yahweh sendo Santo relaciona com homens pecadores, apontava também que estes homens precisavam ser circuncidados no coração, aqui já vemos a estrutura de Igreja Visível e Invisível, ou seja, nem todos os circuncidados na carne foram circuncidados no coração.
Veja que terrível pecado comete os que não circuncidavam seus filhos, mais uma vez vale lembrar o caso do próprio Moisés (Ex 4. 24-26)
Percebam quão grande pecado é! Já que a aliança é a espinha sustentadora da interpretação bíblica. A idéia contida na circuncisão de limpeza permanece no batismo, tanto no seu aspecto interno quanto externo ver ( At 22.16; Tito 2.5-6)
A idéia da descendência também está contida no batismo, quando Pedro fala que a promessa era para “vós, vossos filhos e para todos os que estão longe, isto é, para quanto o Senhor, nosso Deus, chamar” (At. 2.39) Observem, que claramente o texto fala de Três grupos: Vós, seus filhos, e outros.
A IDÉIA DE FILHOS AQUI É FILHO MESMO, POIS ISTO É A COMPREENSÃO NATURAL DA ALIANÇA.
Pedro não introduziria uma compreensão estranha, isto é absurdo. Quando Jesus perguntou se ele (Pedro) o amava, começou dizendo apascenta meus cordeiros (João 21.15) Sabes qual é a definição que o dicionário dá para cordeiro? R- Filho de ovelha, ainda novo e tenro.

Aliança Abraamica (parte VIII)

A relação das crianças na comunidade da aliança, não teve um fim, a igreja cristã que tem como Sagradas Escrituras, também o Antigo Testamento, segue a mesma linha de interpretação aliancista, seria de estanhar, se não seguisse, e é de estranhar qualquer interpretação que não leve em conta esta posição.
Como sacramento a circuncisão deve ser compreendida como algo importante dentro do contexto da aliança. O sacramento da circuncisão não era algo que o crente poderia ou não ter, não era uma questão de achar interessante, ou não, não era algo opcional.
Isto é importante entendermos, muita gente não batiza seus filhos, porque acham que isto não tem importância nenhuma, o não batizar hoje equivale ao não circuncidar, e isto é um problema e falta de compreensão do significado do selo da aliança. O incircunciso deveria ser eliminado no meio do povo da aliança Gn 17.14

O Sentido da Circuncisão dentro do contexto da aliança

A circuncisão em Israel não tinha o caráter nacional, ou seja, não tinha somente a intenção de identificar o povo, até porque como já vimos, povos vizinhos circuncidavam seus filhos. Em Israel a circuncisão tinha significado maior.
Robertson diz:
Desta vista panorâmica da significação da circuncisão na história e na teologia do antigo Testamento deve ter ficado evidente que a circuncisão fala persistentemente à questão da elação do homem com Deus. O rito jamais se retrai ao nível de ser meamente um símbolo de membresia nacional. Desde o momento de seu começo e ao longo da história de Israel a circuncisão funciona como sinal da aliança
È importante atentarmos que todos estes significados teológicos, o batismo na igreja cristã assume, pois devemos entender as coisas a nível de aliança, ou seja, continuidade.
Landes em seu livro diz:
Os judeus, na Antiga Dispensação, já estavam acostumados a incluir os filhos na Igreja visível de Deus, pelo rito da circuncisão. Não podiam, portanto, interpretar as palavras de S. Pedro, senão de modo a incluir os filhinhos na Igreja visível da Nova Dispensação. Na Igreja, seriam in¬cluídos us que ouviam e criam no Evangelho, os seus filhos e todos os demais eleitos que viessem a ser chamados por Deus para fazer parte do seu povo. Os filhos de cristãos no Novo Testamento são chamados santos, mesmo quando somente um dos pais é crente. O apóstolo S. Paulo de¬clara: "'O marido incrédulo é santificado na mulher, e a mulher incrédula é santificada no irmão; de outra maneira os vossos filhos seriam imundos, mas agora são santos" (I Cor. 7:14). São santificados os filhos em vir¬tude da fé professada pelos pais. Para S. Paulo, santos são os próprios membros da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Êle escreveu várias cartas dirigidas aos santos, que eram membros de diversas igrejas (I Cor. 1:2; Rom. 1:7; Ef. 1:1; HL 1:1). Concluímos que os meninos, santos, filhos de crentes, são membros da Igreja e, por isso mesmo, devem ser ba¬nzados. Até aqui, temos demonstrado, à luz das Escrituras, que o próprio Deus determinou fossem as crianças incluídas na sua Igreja visível, desde o tempo de Abraão, e que essa determinação divina não foi revogada, na Nova Dispensação, mas antes, confirmada pelos claros ensinos dos apósto¬los Pedro e Paulo. E, sendo as crianças, por determinação divina, mem¬bros da Igreja de Deus, devem também receber o sinal visível desse fato auspicioso, o santo batismo instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo (Mat. 28:19).

Israel no Antigo Testamento era a igreja de Deus, sendo assim se houvesse algum estrangeiro que quisesse participar das cerimônias ao Senhor Deus, como no caso da Páscoa deveria ser circuncidado, e então ele seria considerado como natural da terra (Ex 12.48), na igreja nós podemos ver a mesma estrutura, se uma pessoa quiser participar da vida comunitária se espera que ele assuma compromisso com a comunidade, vemos assim, uma continuidade.
Esta é a aliança abraamica e seu selo, esta aliança tem profundo significado teológico para nós, os cristãos não estão soltos, temos uma continuidade histórica, em Abraão, Deus trata com uma igreja visível que teria sacramentos, através de Abraão, Deus gera uma nação, entra em relação pactual com este povo, eles tinham o selo deste relacionamento, a igreja no Novo Testamento é a continuidade deste povo, então a igreja precisa trazer em si o selo deste relacionamento.

Aliança da Lei Parte I

Nada mais contraditório para o sistema dispensacionalista do que falar em aliança da lei, mas o que é isto? É um sistema herético de abordagem da Bíblia, se faz necessário conhecermos o que significa isto, então neste estudo vamos dá uma geral deste sistema.
O Rev. João Alves dos Santos dá o seguinte histórico
O movimento chamado de dispensacionalismo surgiu em meados do século passado na Inglaterra, através do grupo que levou o nome de Irmãos ou Irmãos de Plymouth, por ter nesta cidade seu quartel general. Seu principal expoente foi John Nelson Darby (1800-1882), um irlandês que, insatisfeito com a Igreja Anglicana, da qual era ministro (cura), juntou-se ao grupo dos Irmãos em 1827. Por volta de 1830 Darby já era o principal líder dos Irmãos, dada a sua capacidade de organização e a sua proficiência em escrever. A característica principal desse grupo foi a ênfase que deu às reuniões semanais de estudo bíblico e celebração da Ceia do Senhor, associada a um desprezo por qualquer tipo de organização denominacional ou forma de culto. Os Irmãos rejeitavam qualquer sistema clerical ou de classe ministerial, insistindo que estavam regressando à forma simples de culto e governo eclesiástico dos apóstolos. (...) Esse novo modo de interpretação bíblica, especialmente de profecias, ganhou popularidade rapidamente nos círculos evangélicos, graças ao grande trabalho de divulgação que dele foi feito pelo próprio Darby e por seus seguidores, e graças, principalmente, ao grande volume de livros, panfletos e artigos sobre o assunto que foram, desde então, escritos e ainda continuam sendo. Grandes movimentos, como o das Conferências Evangelísticas de Dwight L. Moody, eram virtualmente controlados por dispensacionalistas. A escola fundada por Moody, que passou a chamar-se Instituto Bíblico Moody, assim como diversas outras escolas teológicas, como o atual Seminário Teológico de Dallas, passaram a ser verdadeiros centros de doutrinação dispensacionalista, nos Estados Unidos. O mesmo se dá hoje no Brasil, especialmente com os institutos bíblicos chamados de interdenominacionais, de modo geral. (...) Outro fator que muito contribuiu para a difusão do pensamento dispensacionalista foi a publicação da chamada Bíblia de Referência de Scofield, em 1909, a qual já vendeu mais de dois milhões de cópias desde então. A Bíblia de Scofield ou, mais corretamente, a Bíblia de Referência de Scofield é, na verdade, uma edição da Versão King James, com anotações feitas por Scofield, na linha de interpretação dispensacionalista. William E. Cox afirma que “o pai do dispensacionalismo, Darby, assim como seus ensinos, provavelmente não seriam conhecidos hoje, não fosse por seu devoto seguidor, Scofield”. Esta declaração, baseada em pesquisa feita pelo autor citado, dá bem uma idéia da influência que Scofield exerceu, especialmente através de sua “Bíblia”, na propagação do dispensacionalismo.

O Dispensacionalismo divide a história da revelação de Deus ao homem em sete períodos distintos, onde no final de cada período, Deus teria feito um teste com o homem, entretanto no final de cada período o homem falhou, Deus sendo misericordioso faz um novo trato com o homem.
No sistema dispensacionalista, Deus tem um povo especial chamado Israel, quando Jesus veio, Ele veio para os que eram seus, mas como eles rejeitaram, Deus abre uma espécie de parêntese e inclui a Igreja na história. João Alves fala o seguinte sobre isto
O novo programa divino intencionalmente não havia sido revelado antes de sua inauguração. Veio, portanto, não só de modo muito repentino como também totalmente sem qualquer revelação do Velho Testamento. O caso seria quase paralelo se, neste tempo atual, um projeto novo e imprevisto fosse imposto para substituir o Cristianismo. O preconceito obstinado e a resistência violenta que surgiram na mente judaica estão na proporção direta da sinceridade com que o indivíduo judeu estimava seus privilégios de longos anos. Somado a tudo isso e calculado para tornar a nova empresa divina muitas vezes mais difícil foi seu ousado anúncio de que os desprezados gentios seriam colocados em pé de igualdade com os judeus (....). Desta forma, o primeiro concílio de igrejas chegou à conclusão de que um novo propósito divino havia sido introduzido e que, quando esse propósito chegasse à sua conclusão, Deus retomaria o programa judaico e o levaria à sua consumação predita. O documento da decisão desse notável congresso se encontra em Atos 15: 13-18.

É verdade que as Escrituras dizem que Ele veio para os que eram seus, mas os dispensacionalistas compreendem este texto de forma errada, A questão é a seguinte: Deus tem uma única Igreja, é verdade que no Antigo Testamento a maioria da Igreja era judaica, mais isto não quer dizer que Deus não tenha se relacionado com gentios que se converteram, podemos citar como exemplo: A história de Jonas, Naamã.
Mas o que veremos aqui é como o dispensacionalista vê as coisas
Deus se revela em sete dispensações, a saber: 1ª) Da Inocência, que começou com a criação de Adão, e terminou com a sua expulsão do Éden; 2ª) Da Consciência, que começou com a expulsão do Jardim (consciência do bem e do mal) e terminou com o dilúvio; 3ª) Do Governo Humano, que começou com o dilúvio e terminou com a confusão das línguas; 4ª) Da Promessa, que começou com Abraão e terminou com a escravidão no Egito; 5ª) Da Lei, que começou no Sinai e terminou com a expulsão de Israel e Judá da terra de Canaã; 6ª) Da Graça, a atual, que começou com a morte de Cristo e terminará com o arrebatamento da Igreja; 7ª) Do Reino, que começará com a Segunda Vinda de Cristo e terminará com o juízo do Grande Trono Branco - é também chamada de Dispensação do Milênio. Isto é o que se ensina no meio pentecostal e arminiano de modo geral
No sistema dispensacionalista existe mais de um evangelho, o Rev. João apresenta o quadro da seguinte forma:
(1) O Evangelho do reino. São as boas novas de que Deus Se propõe a estabelecer na terra, em cumprimento ao Pacto Davídico (2 Samuel 7: 16 e refs.), um reino político, espiritual, israelítico e universal, sobre o qual o Filho de Deus, herdeiro de Davi, será Rei, e que será, por mil anos, a manifestação da justiça de Deus nos negócios humanos. Duas pregações deste Evangelho são mencionadas; uma passada, começando com o ministério de João Batista, continuando por nosso Senhor e Seus discípulos, e terminando com a rejeição judaica do Rei. A outra é ainda futura (Mateus 24:14), durante a grande tribulação, e imediatamente precedendo a vinda do Rei em glória.
(2) O Evangelho da graça de Deus. São as boas novas de que Jesus Cristo, o Rei rejeitado, morreu na cruz pelos pecados do mundo, ressuscitou dos mortos para a nossa justificação, e que, por Ele, todos os que crêem são justificados de todas as coisas. Esta forma do Evangelho é descrita de diversas maneiras.
(3) O Evangelho eterno (Apoc. 14:6). É o que deverá ser pregado aos moradores da terra no final da grande tribulação e imediatamente antes do julgamento das nações (Mat. 25. 25:31 e refs.). Não é nem o Evangelho do reino nem o da graça. Embora o seu tema seja julgamento, não salvação, significa boas novas para Israel e para aqueles que forem salvos durante a tribulação (Apoc. 7:9-14; Luc. 2:28; Sal. 96:11-13; Isa. 35: 4-10).
(4) O que Paulo chama de “meu Evangelho” (Rom. 2:16 e refs.). Este é o Evangelho da graça de Deus em seu mais pleno desenvolvimento, mas inclui a revelação do resultado desse Evangelho na chamada da igreja, suas relações, posição, privilégios e responsabilidade. É a verdade distintiva de Efésios e Colossenses, porém, interpenetra todos os escritos de Paulo.

È desse ponto de vista, que irá surgir à idéia do arrebatamento secreto e outras loucuras dispensacionalistas.
Continuaremos na próxima semana

Aliança Mosaica (parte II)

Antes de tudo devemos mostrar se a Lei é uma aliança, vejamos alguns textos: Ex 34.28; Dt 4.13; Dt 9. 9,11.
Isto é importante entendermos, a Lei é uma aliança e por ser aliança é graça, pois revela a vontade de Deus escrita, através dela o homem sabe o que agradaria a Deus ou não e conseqüentemente receberia as bênçãos caso obedecesse e as maldições caso desobedecesse. Mas, mesmo o castigo do Senhor possui um caráter disciplinador e por possui isto já demonstra o seu amor, Interessante observarmos o que Salomão disse. Ver 1 Reis 8. 22-53.
Interessante também é observarmos o texto de Deuteronômio 30. 1-5
1 E será que, te sobrevindo todas estas coisas, a bênção ou a maldição, que tenho posto diante de ti, e te recordares delas entre todas as nações, para onde te lançar o SENHOR teu Deus, 2 E te converteres ao SENHOR teu Deus, e deres ouvidos à sua voz, conforme a tudo o que eu te ordeno hoje, tu e teus filhos, com todo o teu coração, e com toda a tua alma, 3 Então o SENHOR teu Deus te fará voltar do teu cativeiro, e se compadecerá de ti, e tornará a ajuntar-te dentre todas as nações entre as quais te espalhou o SENHOR teu Deus. 4 Ainda que os teus desterrados estejam na extremidade do céu, desde ali te ajuntará o SENHOR teu Deus, e te tomará dali;
5 E o SENHOR teu Deus te trará à terra que teus pais possuíram, e a possuirás; e te fará bem, e te multiplicará mais do que a teus pais.
Aqui vemos que a Lei não é contrária a graça, a Lei é o veículo para Receber as bênçãos condicionais, mesmo que o povo de Deus venha quebrar a Lei, arrependendo-se, Deus seria propicio, se a Lei não fosse uma aliança, fosse algo que não possuísse graça nenhuma, Deus não poderia remover o castigo, pois a Lei seria sem misericórdia.
Robertsom diz algo bem interessante
(...) a aliança mosaica da lei dirige-se claramente ao homem em pecado. Esta última aliança jamais pretendeu sugerir que o homem, por obediência moral perfeita, pudesse entrar em um estado de garantida bem aventurança pactual

A Lei está tão recheada de graça, como poderíamos entender a lei cerimonial sem que víssemos como graça de Deus quando o homem pecasse? A idéia da substituição já estava contida desde antes da Lei e com a Lei isto não é eliminado. Na lei cerimonial isto fica patente.
Na Lei cerimonial existem vários tipos de oferta, eis os seus significados
1. As ofertas queimadas.
O termo que descrevia as "ofertas queimadas" é `Olah que deriva da raiz do verbo que significa "subir" ou "ascender". É uma oferta de ascensão. Isso se referia ao fato de que a oferta inteira era queimada e "ascendida a Deus".
Ela era a oferta fundamental para que os homens comparecessem à presença do Senhor. Por isso, Levítico 1.3 diz que um homem que fez essa oferta "seja aceito perante o Senhor" e o verso 4 acrescenta "para que seja aceito a favor dele, para a sua expiação".
Uma vida foi oferecida sobre o altar.
Ela devia ser completamente queimada sobre o altar. Isso significava que o dever daquele homem para com Deus não era apenas de dar parte de si a Deus, mas sim uma rendição total e plena de si e de TUDO QUE POSSUÍA.
Dependendo da situação financeira do ofertante, a oferta poderia ser um touro, um cordeiro ou um pombo.
2. As Ofertas de Manjares.
Ela não envolvia tirar uma vida. Ao invés disso, era composta de farinha, óleo e incenso.
Ela reportava-se ao tempo da criação, quando Deus disse ao homem: "Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento” (Gn 1.29).
Este é um quadro daquele que se tornou o nosso "Pão da Vida", que foi ungido com "Óleo" do Espírito Santo.
Mel era proibido, ao invés disso era usado incenso.
Isso é porque o mel poderia eventualmente azedar (fermento também era proibido); mas o incenso ressaltava o seu mais alto grau de fragrância depois de ter sido queimado.
Ela seria temperada com sal - indicando preservação (2.13).
3. Ofertas pacíficas.
Todos comiam uma porção da oferta pacífica (o ofertante, o Senhor, o sacerdote e até mesmo os filhos do sacerdote).
Nas ofertas queimadas e nas ofertas de manjares, o Senhor e o sacerdote tinham uma porção, mas não o ofertante.
Isso significava comunhão com Deus. Quando você toma lugar em uma mesa e come com alguém, significa que você está em paz com ele. Cristo tornou-se nossa oferta pacífica. Nele Deus e o homem encontram um alimento comum.
È notável que a oferta pacífica geralmente vinha acompanhada de uma libação de vinho - Pão e vinho formam a mesa do Senhor.
4. Ofertas pelo pecado.
As primeiras três ofertas eram apresentadas como atos de culto. Esta oferta é constituída como expiação pelo pecado.
As primeiras três ofertas eram queimadas no altar. Esta oferta era queimada na terra nua, fora do acampamento. Este é um quadro de Jesus que foi crucificado fora de Jerusalém. Por isso, foi que também Jesus, para santificar o povo, pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta (Hb 13.12).
5. Ofertas pela culpa.
Esta oferta é a única que não é descrita como "aroma suave", como até mesmo a oferta pelo pecado é descrita em Levítico 4.31.
Esta oferta se aproxima muito da oferta pelo pecado, mas ainda tem algumas diferenças sutis.
Enquanto os pecados que requerem uma oferta são somente mencionados em um sentido geral, há um número de ofensas específicas que requerem uma oferta pela culpa.
Uma parte da oferta pela culpa incluía uma recompensa financeira para a parte que foi prejudicada (6.5). Assim, a oferta pela culpa incluía o princípio da restituição.

Aliança Mosaica III

Vimos que a Lei é graça, pois ela é um meio pela qual a vontade de Deus se torna revelada. Ela é instrumento de benção e maldição. Mas é interessante notar que mesmo as maldições não são de caráter destrutivo e sim pedagógico, a maldição é conseqüência de desvio, e por sofrerem as maldições da lei, o povo de Deus é instigado a confessar seu pecado, e voltar ao reto caminho, sendo assim, até a própria maldição no contexto da lei visa um fim, a correção. E isto é uma atitude graciosa de Deus para com seu povo. (Lv. 26. 14-46)
Sabemos também que há leis morais, cerimoniais e civis. No total são 613 mandamentos.
Dentre eles, vamos enfatizar um pouco mais, sobre as leis que regulamentavam as cerimônias, ingestão de certos alimentos e sacrifícios. É o que se chama comumente de Leis cerimoniais.
Estas leis tinham um caráter simbólico, mas no tempo de seu uso, elas cumpriram sua missão, foram abolidas por serem sombras. (Mt 15.20; Mc. 7. 15-19; At 10. 9-16; Hb. 10. 1-14; 13. 9-10)
Muitos já perguntaram qual a razão de proibir certas coisas?
Precisamos estabelecer um princípio, aonde vamos vê a graça de Deus.
Tudo o que está relacionando com divindades estrangeiras ou com seu culto é condenado por sua impureza e excluído do culto ao Senhor.
Já vemos nesta proibição o caráter exclusivista do culto a Deus
Eichrodt dá as seguintes informações:
Por isso, país e comida estrangeiros são impuros (Am 7.17; Ez 4.13; Os 9.3), muitos animais são excluídos da lista dos que servem para alimento, porque desempenham algum papel em algum culto estrangeiro ou em ação e mágicas, assim, por exemplo, o porco, animal doméstico e sacrificial da antiga Canaã; os ratos, as serpentes e as lebres, consideradas pela magia, portadores de poderes demoníacos.

Qual a razão de tudo isto?
A razão reside na compreensão do culto, que eles deveriam ter, e isto, nos serve como principio
Eichrodt, trás a seguinte informação
O culto não é um simples fenômeno secundário, mas uma autêntica manifestação vital da religião, que pretende comprometer a totalidade da vida humana. Por ele, não somente o elemento espiritual e pessoa da vida humana, mas também o corporal se converte em agente e instrumento da atividade religiosa

Então o motivo das proibições era pedagógicos, Deus numa passagem em Jeremias diz o seguinte: Assim diz o Senhor: Não aprendais o caminho dos gentios, nem vos espanteis com os sinais dos céus, porque com eles os gentios se atemorizam Jeremias 10.2
Por que o Senhor diz isto?
Porque os povos pagãos, por terem medo adoravam os objetos dos céus, quando via alguma coisa que eles não sabiam discernir
Então, a proibição de certos alimentos, de certos rituais era preventiva para o povo de Deus.
Sobre sexo, procriação e morte, Eichrodt diz:
A estreita relação especialmente das divindades cananéias com a procriação e o nascimento, e das divindades egípcias co o culto dos mortos, pode contribuir para a rigidez de tais preceitos. As mesmas razões deveriam atuar na proibição da mutilação e da tatuagem (Dt 23.2; 14.1; Lv. 19.27; 21.5 cf. Dt 22.5)

Por tudo isto, vemos graça de Deus, em preservar seu povo da idolatria, superstição, atitudes animalescas.
O culto está ligado com o meu dia, não tem como desassociar vida comum de vida cúltica, a vida comum de Israel era dirigida pela vida cúltica, as proibições não eram só quando estivesse no culto, mas era para seu dia a dia.
Eichrodt faz o seguinte comentário
Precisamente porque, todavia, não há separação entre a vida física e a espiritual do homem, mas que se leva a sério o homem na totalidade de sua natureza psicossomática, este participa na relação na relação com Deus também como ser material. Nas ações externas do culto, a misericórdia divina é comunicada ao homem em sua forma existencial concreta, a ação sagrada se converte em sacramento.

Aliança Mosaica (Parte IV)

Qual seria o relacionamento da aliança mosaica coma as demais alianças anteriores a ela?
Será que antes da aliança mosaica existiram leis, a serem obedecidas?
Será que existe uma revelação orgânica das Escrituras?
Será que poderíamos averiguar a existência desta organicidade?
A Lei existia antes da aliança mosaica, veja o caso da aliança da criação, Deus deu três mandatos: Espiritual Gn 2. 16-17; Cultural Gn 2.15; Social Gn 2. 18-24.
Depois do pecado, Deus tratou com graça com o Ser Humano, prometendo um Salvador, mas a Lei não deixou o homem de lado, é interessante que a lei depois do pecado desempenha o papel de aio de condutor ao homem a Cristo Gl 3.24.
Mesmo com o pecado os mandatos não se tornaram inválidos, o homem deveria trabalhar, cumprindo assim, o mandato cultural, só que agora com uma maldição anexada ao mandato Gn 2.19.; No caso do social também. Ver Gn 4.1. Interessante observar que a maldição está anexada ao mandato cultural e ao social, mas a graça de Deus também está ali, no caso do mandato cultural, o homem haveria de sofrer, mas ele iria retirar da terra a sua comida, o salmista diz o seguinte: Todos esperam de Ti que lhes dês de comer a seu tempo Salmo 104.27. No caso do mandato social Eva concebe seus filhos com ajuda do Senhor Gn 4.1; 4.25
No que diz respeito ao mandato espiritual a graça reside no fato de ter Deus provido um Salvador, como também pelo fato, de Deus ainda receber culto, e desta forma se tornar favorável ao homem Gn 4.3-7.
Observe que o culto não deixou de ser praticado. Em Gn 4.26 fala que daí se começou a invocar ao Senhor, Interessante uma nota explicativa que a Bíblia de Genebra traz sobre o nome de Sete, “seu nome derivado do verbo hebraico traduzido como “apontado” expressa à fé que Eva possuía de que Deus continuaria a família da aliança, apesar da morte “
Na aliança noética, Deus estabelece o conceito da pena de morte, como graça para justiça da parte ofendida e punição para o culpado Gn 9.6. E desta forma, Ele deixa bem claro o valor da vida humana. Com Abraão, Deus estabelece diretrizes para estabelecimento da aliança, “um selo”. Que era a circuncisão, sinal da aliança.
Interessante que a obediência traz vida, benção. A não obediência, morte, maldição. O filho de Moisés, não era circuncidado, então as Escrituras nos informam que Deus iria aplicar a pena devida à desobediência da aliança abraâmica na vida de Moisés Ver Ex 4. 24-26. Olhe a continuidade das alianças, elas não se excluem uma das outras, elas se complementam, pois é uma revelação orgânica e progressiva.
Vemos então, que a lei não é algo estranho as alianças anteriores e muito menos a graça que estas elas continham. Caso fossem obedecidas, é o que se chama de caráter condicional da lei, bênçãos condicionais da aliança. Lv. 26. 3-46
Surge uma questão, Graça não e favor imerecido?
De fato o é. Será que o homem merecia graça de continuar comendo e tirando da terra o seu sustento, depois de ter pecado?
Será que o homem merecia a graça de ter e ver sua posteridade, já que ele pecou? Será que a mulher (Eva) merecia receber ajuda da parte do Senhor na concepção de seus filhos? Será que o homem pecador merece a graça de Deus de ter filhos e mais filhos? Salmo 128
Interessante é que a obediência é que traz estas bênçãos, mas a obediência também é graça de Deus, pois se Ele não conduzir ao arrependimento, o homem jamais obedecerá e se arrependerá quando pecar Rm 2.4; Fp 2.13
As nossas bênçãos espirituais estavam condicionadas à obediência de Cristo, se a temos é porque Cristo obedeceu a Lei. João 17.4; Romanos 5.19. 2 Coríntios 5.21.
Deus é quem leva o homem ao arrependimento, dando-lhe coração que ama sua lei e conseqüentemente tem as bênçãos decorrentes da lei, é o que João diz: Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, este vem a mim João 6.45.

Aliança Davídica I

A base para a aliança davidica é o texto de 2ª Samuel 7. 1-17. Nesta aliança Deus firma o trono de Davi para sempre, e diz que agirá como Pai com seus sucessores e que nunca faltará alguém da linhagem de Davi que ocupe o trono.
Esta aliança tem como aspecto último: Jesus. Jesus é o descedente que estabelece o reino de Davi para sempre. Esta aliança aponta para os ofícios de Cristo. O oficio em questão aqui é o de Rei.
Jesus é Rei, mas para ser Rei necessariamente tem que ter um reinado, Qual seria o reinado de Jesus? Quem são seus súditos?
A terra é o lugar e a Igreja seus súditos
Antes de considerarmos isto, vamos analisar a estrutura da aliança davidica
A aliança é feita entre duas pessoas: Deus e Davi
A promessa desta aliança: Estabelecimento do Reino
Condições desta aliança: A Fidelidade do Senhor (A minha misericórdia não se aparará dele. v. 15)
Castigos desta aliança: Disciplina (v.14)
Interessante observar que a “promessa” não está condicionada nesta aliança a “obediência”, é fato que a obediência traz bênçãos, e quando Davi vai passar o reino a Salomão ele o exorta à obediência. Ver 1 Reis 2. 1-4. Mas a aliança davidica está condicionada à misericórdia de Deus e à sua fidelidade. Ver os versos 13-16.
Robertson sobre isto diz o seguinte:
O primeiro filho de Davi a assentar-se em seu trono aprendeu, de maneira vívida, o significado da ação disciplinadora de Deus. Deus havia prometido a preservação perpétua da casa de Davi, em contraste com a casa de Saul. Mas também dera certeza de que “se vier a transgredir, castigá-lo-ei com varas de homens e com açoites de filhos de homens” (2 Sm 7.14). Por causa do pecado de Salomão, Deus declarou que lhe tiraria o reino e o daria ao seu servo (1 Rs 11.11) A implicação é espantosa. Algum outro, que não era da descendência de Davi, governará sobre o reino de Salomão. Entretanto, Deus não esqueceu seu compromisso sob a aliança davídica “Todavia, não tirarei o reino todo; darei uma tribo a teu filho, por amor de Davi, meu servo, e por amor de Jerusalém, que escolhi (1 Rs 11.13)

Nestes versos, Deus fala da possibilidade de transgressão (v.14). Possibilidade esta, que se concretiza com o próprio Davi. 2 Samuel 12. E posteriormente com Salomão e com todos os seus descendentes, só é olharmos a história dos descendentes de Davi
Davi, 1050- 1010 a.C. Homem segundo o coração de Deus, mas... 2 Samuel 12
Salomão970-930 a.C. Começou e reinado bem, mas... 1 Reis 11 1-13
Roboão 930-913 a.C. Desde o começo demonstrou arrogância, ver sua história1 Reis 14. 21-31
Abias 913-910 a.C. Tinha algumas atitudes corretas, conhecia a aliança ( 2 Cr. 13. 4-12), mas, pecou. Ver 1 Reis 15. 1-8
Asa 910-869 a.C. Fez o que era reto diante do Senhor. (1 Reis 15. 9-24), mas, pecou ver 2 Crônicas 16. 1-10.
Josafá 872-848 a.C. Fez o que era reto perante o Senhor, o profeta de Deus o repreende, pois ele tinha ido ajudar a Acabe. Ver 2 Crônicas 19. 1-3. E pelo fato de ter se aliado com ímpios. 2 Crônicas 20 31-37.
Jeorão 848-841 a.C. Fez o que era mau perante o Senhor, veja a fidelidade do Senhor na narrativa deste rei ( 2 Crônicas 21. 7) seus atos versos 11-20
Acazias 871 a.C. Fez o que era mau perante o Senhor. Ver 2 Crônicas 22. 1-9.
Atalia 841-835 a. C. Única mulher que reinou sobre Judá 1 Crônicas 22.12 fez o que era mau perante o Senhor, a tentou conta a aliança do Senhor ver 2 Crônicas 22.10-11
Joás 835-796 a.C. Este rei é interessante, ele é salvo da morte, (ver 2 Crônicas 22.10-12) e é empossado em virtude da aliança que é lembrada pelo sacerdote Joiada. Ver 2 Crônicas 23.3. Este fez o que era reto perante o Senhor, mas quando o sacerdote morreu... (ver 2 Crônicas 24. 17-27)
Na próxima semana continuaremos a seqüência do reis desce dentes de Davi e a fidelidade de Deus na aliança

Aliança Davidica II

Na seqüência dos reis vemos: Amazias, Azarias, Jotão, Acaz. Ezequias, Manassés, Amom, Josias, Jeocaz, Jeoaquim, Joaquim e Zedequias.
Destes reis, tivemos uns bons e outros ruins, o que se faz necessária realçar é a fidelidade do Senhor. A aliança com Davi não foi quebrada, quando um rei deste desobedecia á Lei de Deus, ele era castigado, como Deus prometeu a Davi que faria. Mas o descedente dele estava lá, de sorte, que a linhagem de Davi permaneceu, apontando pra Jesus.
Percebemos a fidelidade do Senhor, “fidelidade” é uma palavra chave na compreensão das alianças, mesmo àquela que tinha caráter condicional, como a mosaica.
Não era por que o povo foi rebelde a Deus, que Ele não tiraria seu povo do Egito e o levaria a terra prometida. Então, até na aliança mosaica, vemos o caráter da fidelidade de Deus, apesar do povo. “A não observância às estipulações mosaicas trará certamente punição, mas não trará aniquilação”. A aliança davidica também tem este fato. Vemos também este aspecto da fidelidade do Senhor na aliança abraâmica, “Deus mesmo assume a responsabilidade total no cumprimento da aliança de Abraão. Sá a teofania passa entre os pedaços (Gn15)”
A aliança ente Deus e os homens são ente duas partes desiguais, mas a relação entre Deus e Cristo é entre partes iguais, interessante que todo o desenrolar das alianças: Do Começo (Adão), Noética, Abraâmica. Mosaica, Davidica e a da Consumação. Todas elas são um desenrolar da aliança da redenção feita entre Deus e Cristo.
Então, podemos perceber o seguinte, que no sentido de bênçãos para os homens a aliança mosaica tem aspectos condicionais, só que estes aspectos, não invalidam a estrutura maior da aliança mosaica, já que ela nada mais é do que um estágio da administração da aliança da redenção.
Sendo assim, vemos que existe uma estrutura maior nas alianças, um alicerce em todas as alianças, e este alicerce é a fidelidade do Senhor, a transmissão de graça estava condicionada á obra de Cristo, e como Sua obra era de fato certa e consumada, a fidelidade do Senhor não ficaria comprometida em nenhuma das alianças, se sorte, que o homem, ou satanás, em momento algum teve o direito de invalidar a aliança de Deus com seu povo.
Robertson diz algo muito interessante sobre isto:
Mesmo nos dia presentes, a própria existência das experiências de castigo para o crente em Cristo revela o caráter temporário da situação presente. Virá o dia em que não serão mais necessárias tais correções disciplinares. Em qualquer das duas, na situação prevalecente sob a velha aliança, ou na situação prevalecente sob a nova, o resultado certo da aliança de Deus não é perturbado. A presença de ameaça de julgamento sob a condição de desobediência não implica inerentemente colapso da certeza de que Deus finalmente será bem sucedido em sua intenção pactuada de redimir um povo para si mesmo
Existem alguns textos que falam que a fidelidade do Senhor não está condicionada ao homem: Is 43. 22-44.8; Romanos 3. 1-4.
Berkhof, falando a respeito de Cristo como Oferta Substitutiva e do alcance desta oferta diz o seguinte, “os crentes veterotestamentários receberam plena justificação ou perdão, embora o seu conhecimento disto não fosse tão completo e tão claro como é na dispensação do Novo Testamento” .
A lógica é a seguinte
1- O plano da Redenção fora arquitetado na eternidade, antes de haver céus e terra Efésios 1. 4-5.
2- O plano não poderia correr risco, sua realização era certa, sendo assim, todos por quem Cristo morreu, são justificados plenamente, segue-se, que o efeito da morte de Cristo é retroativo e progressivo.
3- Como os estágios da aliança são manifestações da aliança da Redenção, a fidelidade do Senhor não está condicionada ao homem e sim a Cristo.
4- Os castigos da aliança são demonstrações de graça para com seu povo, visando correção.
Comentando, sobre a aliança mosaica e o castigo dado por Deus ao povo, Robertson diz:
Mas é inconcebível que Deus pudesse falhar em conduzir seu povo através do deserto até introduzi-lo na terra de Canaã. Seu propósito de redimir um povo para si mesmo será cumprido. A certeza de Deus realizar seus propostos é garantida, mesmo no. momento de maior apostasia. Deus pode apagar totalmente a Israel como um todo, mas levantará outra nação do israelita Moisés (ver Ex 32.10) A não observância às estipulações mosaicas trará certamente punição, mas não trará aniquilação

Aliança Davidica (parte III)
Cristo como Representante de seu povo, assumiu papeis específicos dentro de uma esfera maior do entendimento pactual, Cristo é Sacerdote, representa seu povo diante de Deus, também foi à oferta que deveria ser apresentada a Deus. É neste sentido que compreendemos que o sacerdócio levitico apontava para Cristo, as ofertas e sacrifícios representavam Cristo. Da mesma forma Moisés e a escola profética anteciparam Cristo, “O Espírito de Cristo que neles estavam” Pedro já fala isto 1 Pedro 1.11.
Da mesma forma a linhagem de Davi apontava para a linhagem real de Cristo. Aqui reside uma questão. A da identificação do Trono de Davi com o trono de Deus.
Robertson comentando o texto de 1 Crônicas 29.22, diz:
Note-se que o Cronista não se sente satisfeito em indicar que Salomão, na linhagem de Davi, atuou como “governador para o Senhor”. Esta afirmação teria sido em si mesma bastante surpreendente. Mas a afirmação vai ainda além. Salomão assenta-se “no trono de Yahweh como rei” O trono dos descendentes de Davi não era nada menos que o trono de próprio Deus

Isto é interessante, pois observamos no Salmo 2. 1-2 esta ligação. Os ímpios se voltam contra o Senhor e seu Ungido, quando olhamos para o Texto de Atos 4. 23-30 o Ungido do texto de Atos é Jesus o texto dos Salmos tem a ênfase no rei de Israel. Temos aqui uma identificação clara entre o Trono de Davi e sua identificação com Jesus. Jesus como descendente de Davi era em primeiro estágio: Servo Sofredor. O texto no verso 27-28 faz menção a isto: “ Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, 28 para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”.
O Segundo estágio não será mias de Servo Sofredor e sim do Rei-Guerreiro Conquistador, que apazigua e estabelece paz, Miquéias 4. 3-4 fala sobre isto: “ Ele julgará entre muitos povos e corrigirá nações poderosas e longínquas; estes converterão as suas espadas em relhas de arados e suas lanças, em podadeiras; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra. 4 Mas assentar-se-á cada um debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira, e não haverá quem os espante, porque a boca do SENHOR dos Exércitos o disse”.
Será que Israel no decorrer de sua história sofreu alguma influência de fora na formação do pensamento de realeza e casa real? Como eram as concepções de monarquias nas nações vizinhas a Israel e nos Impérios da Antiguidade?
A origem da monarquia e sua identificação com os deuses era algo bastante comum na Antiguidade, Eichrodt diz o seguinte:
Não resta dúvida de que a instituição da monarquia tem a mesma raiz que o sacerdócio e o profetismo, a saber: o oficio do chefe primitivo, dotado de poder real, que exerce funções sacerdotais, proféticas e reais.
A grande questão é: Em Israel o princípio foi o mesmo?
A identificação do povo de Deus com o seu Deus já se dava desde os tempos antigos, desde quando Deus chamou Abraão, no período dos juizes Deus levantava juizes para livrar seu povo, e mesmo no período da monarquia, não havia a idéia de que o rei era Deus e sim seu Ungido e este Ungido não estava livre para fazer tudo que desejava, ele devia obedecer a Lei da mesma forma como todos obedeciam e se não obedecesse seria castigado como todos. 2 Sm 7.14; 12. 7-15.
Percebemos que em Israel, Deus se identifica com seu Ungido (Rei). O Ungido não é Deus, era o Representante de Deus, Sendo assim, propenso a ser disciplinado por Deus se errasse. Ele também não podia usar as leis em favor próprio. Já nas monarquias antigas os reis muitas vezes usavam, Eichrodt comenta o seguinte:
O rei, por sua parte, não tem a ambição de influenciar profundamente o mundo das idéias religiosas ou do culto; o que de verdade lhe preocupa é utilizar a religião como instrumentos de governo (prescindindo de algumas exceções, como a do rei herege egícipio Aquenaton). Enquanto os demais mediadores da religião comportam-se no sentido de servir a essas intenções, o rei não tem razão alguma para não deixar-los atuar livremente em seus domínios. Somente será possível chegar ao choque quando o sacerdócio pretender usufruir do poder político, ou seja, o conflito entre rei e os demais representantes da religião não se dá no âmbito da religião, mas no da política.
Vemos aqui a diferença entre o povo de Israel e as demais nações, O rei em Israel não podia utilizar a religião como instrumento de governo, pois, ele próprio está debaixo de leis, o caso de Urias é bastante interessante aqui, se Davi fosse como outro rei qualquer da antiguidade, quem ousaria ir questioná-lo por sua atitude? Quem era Urias pra ser levado em conta? Quem ira julgar o Rei que seria deus?
Em Israel as coisas são diferentes, Deus é o Rei, o rei humano é o seu Representante, não como na concepção babilônica, pois ele (o rei) não transmite ao seu povo as forças divinas, sem as quais seria impossível viver. Colheitas e chuvas. Em Israel a idéia do representante não é esta. È a idéia de escolhido para representar idéias, planos, ordens. Que Não provém dele (rei), mas sim, de Deus. A própria cadeira real é o Trono de Deus. Vemos isto nas palavras do cronista “Comeram e beberam, naquele dia, perante o SENHOR, com grande regozijo. Pela segunda vez, fizeram rei a Salomão, filho de Davi, e o ungiram ao SENHOR por príncipe e a Zadoque, por sacerdote. 23 Salomão assentou-se no trono do SENHOR, rei, em lugar de Davi, seu pai, e prosperou; e todo o Israel lhe obedecia ”. 1 Crônicas 29. 22-23.
Esta percepção, este dever em dirigir segundo as Leis de Deus, certamente iriam causar problemas em reis ímpios. E é isto o que acontece na história de Israel e Judá.
Eichrodt faz a seguinte conclusão sobre este problema e percebe o quanto seria difícil ser rei em Israel, se o mesmo não se enquadrasse nas disposições de Deus para ele, eis o que diz:
A vontade do Deus de Israel não somente dava a seu povo ordenanças de regras gerais, mas lhe atribuía tarefas históricas determinadas e desejava ser regras gerais, mas lhe atribuía tarefas históricas determinadas e desejava ser reconhecida e interpretada a cada momento nos acontecimentos históricos. Para isso eram necessárias uma disposição e adaptação constante, com o intuito de responder a essa vontade divina e não perder as arrecadações do governo nas mãos de outros servidores da aliança. E isso não se conseguia com uma simples observância externa de formas religiosas. Nessa religião, carregada de vida e tensão internas, tudo se leva a sério, e a trama não pode se manter por muito tempo. Por isso, a pretensão religiosa da monarquia esteve constantemente pesada na balança e foi-lhe negada a todo o momento a segurança que lhe haveria dado o dogma, cultualmente arraigado, da filiação divina do rei. Fracassando no aspecto religioso, de nada podia o êxito político e perdia sua primazia dentro do Estado.

Aliança Davídica (parte IV)

Vimos a questão do surgimento da monarquia em Israel, e como se dava a relação rei e povo X Deus.
Existe uma questão que precisa ser ponderada: A Monarquia, instrumento da aliança.
Como se deu a transição do governo de juízes para a monarquia em Israel? Quais seriam as características necessárias para reconhecimento de um homem como rei em Israel?
É interessante perceber o carisma que juízes, videntes, nazireus e futuros profetas tinham diante do povo. Eichrotd faz o seguinte comentário sobre a chefia carismática dos juízes
Até a época de Samuel, a chefia carismática havia sido norma, exemplo: A forma em que surgem os chamados juízes, que move, as massas só por sua iniciativa pessoal e pela impressa fascinante que deles emana, o modo em que vão dando forma ao destino político do povo, fez com que o carisma decisivo até então no âmbito religioso, passasse a preponderar também no pano político, adaptando-se nisto toda a estrutura interna da religião de Yahweh.

Qual o motivo da desconfiança com a monarquia?
O medo que a monarquia em Israel fosse igual às monarquias vizinhas onde o oficio do chefe é dotado de poderes divinos.
Os babilônios atribuíam a si mesmo, em vida, uma dignidade e adoração divina e preferiam antes de todos. O título de sumo sacerdote, a partir da dinastia de Hamurabi, isso passa a um segundo plano para dar a precedência à idéia de soberania universal. Os reis sírios, por sua parte, preferiam ressaltar a posse de um poder militar efetivo.
Eis o motivo da desconfiança. Porque Israel queria ser igual às outras nações? 1 Samuel 8. 5? Será que o motivo não era de assemelhar-se a elas? Será que isto não isto não se constituía numa forma de revolta contra o Senhor? Creio que a reposta é sim. Pela ênfase que o narrador dá nos versos do referido capitulo: Porém esta palavra não agradou a Samuel, quando disseram: Dá-nos um rei, para que nos governe. Então, Samuel orou ao SENHOR. 7 Disse o SENHOR a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele. 8 Segundo todas as obras que fez desde o dia em que o tirei do Egito até hoje, pois a mim me deixou, e a outros deuses serviu, assim também o faz a ti.
O Senhor diz que o pedido fosse aceito. O mesmo que se dava com os juízes, videntes e profeta, que era o reconhecimento visível da atuação de Deus também tinha que ter agora nesse novo instrumento da aliança. O que se chama de carisma, nada mais era do que uma forma externa que o Senhor era com aquela pessoa.
Quem fosse o futuro rei em Israel também tinha que ter esta característica. E esta característica quem a dava era o Senhor.
Eichrodt fazendo um seguinte comentário sobre Saul, diz o seguinte:
Por obra do Espírito de Yahweh se converte em outro homem (ISamuel 10.6), aquele moço humilde, filho de u camponês de Gilboa, passa a ser o chefe do exército do povo, consciente de sua força e com toda a autoridade de seu mandato, que faz retroceder aos altivos amonitas em seu próprio deserto e comete a ousadia de enfrentar os poderosos dominadores estrangeiros filisteus. Não é o talento militar, nem os dons de estadistas, ou o desfrutar de um poder reconhecido dentro da política interna; nada disso. O que cria o rei é sua demonstração pessoal de que está cheio de poder divino e que, por isso, é mais capaz que os outros

A narrativa de 1 Samuel 10 17-27 nos apresenta alguns detalhes curiosos:
1- Samuel diz que o pedido de um rei constitui rejeição a Soberania de Deus
2- Saul estava escondido
3- Saul foi desprezado por alguns que estavam lá.
Em 1 Samuel 11 1-15 Saul é informado da afronta dos amonitas e o Espírito do Senhor se apossa de Saul que o leva a ação. Interessante observar que antes desta possessão do espírito do Senhor, Saul voltava do campo.
Pode se verificar nesta atitude do Senhor a sua graça para com seu povo. Mesmo Samuel identificando que a monarquia era rejeição à soberania do Senhor. Este não abandona seu povo. E desta sorte, a monarquia se torna também instrumento da aliança.